A distinção entre o modo indicativo, que expressa o que se sabe, e o condicional, que lida com o que se pensa, é crucial para a análise econômica. Na Espanha, a publicação de dados por órgãos como o Instituto Nacional de Estadística frequentemente leva a interpretações imediatas e definitivas por parte de entidades e políticos, antes mesmo de uma análise aprofundada.
Recentemente, as cifras de filiação à Segurança Social foram divulgadas e, em poucas horas, já eram atribuídas a diversas causas, como políticas governamentais, força empresarial ou reformas específicas. Essa velocidade na atribuição de causalidade é incompatível com a análise rigorosa exigida pelas ciências sociais.
A cultura do indicativo e a complexidade da causalidade
Vivemos em uma cultura onde afirmações são feitas no indicativo: “a reforma laboral reduziu a temporalidade”, “o aumento do salário mínimo destruiu emprego”. No entanto, estabelecer uma relação causal direta entre uma política pública e um resultado específico é uma tarefa complexa. Requer dados, contrafactuais, grupos de controle e técnicas econométricas, além de tempo.
Para afirmar com rigor que uma reforma laboral reduziu a temporalidade, por exemplo, é necessário isolar seu efeito de outros fatores simultâneos, como o ciclo econômico e as expectativas empresariais. Essa distinção entre saber e supor é fundamental.
Velocidade e alcance das interpretações
Embora a tentação de atribuir causalidade a correlações seja antiga, as redes sociais agravaram o problema ao acelerar a disseminação de informações. A pressão por ocupar o discurso favorece certezas instantâneas em detrimento de análises ponderadas. Afirmações categóricas são mais compartilhadas do que hipóteses.
Quando múltiplos atores lançam interpretações causais simultâneas e contraditórias sobre o mesmo dado, o debate público se torna turvo. Em vez de discutir a realidade, discute-se interpretações prematuras, transformando desacordos em confrontos de certezas incompatíveis.
A necessidade de uma cultura da condicionalidade
É essencial instaurar uma cultura da condicionalidade e do pensamento crítico construtivo. Não se deve exigir silêncio, mas sim honestidade epistêmica, com maior uso do condicional como modo verbal e atitude intelectual. Substituir “a reforma laboral reduziu a temporalidade” por “a reforma laboral poderia ter contribuído para reduzir a temporalidade, embora necessitemos de mais evidências” muda o grau de honestidade sobre o que se sabe.
Formular uma hipótese demonstra uma ideia sobre como o mundo funciona e a disposição de submetê-la a testes. Lançar uma afirmação categórica sugere um conhecimento absoluto, dispensando comprovação. O condicional é o verdadeiro motor do conhecimento, pois aceita a possibilidade de erro.
Reconhecer a incerteza é o primeiro passo para superá-la. Um cientista que confessa incerteza está sendo rigoroso. Um agente social que formula uma hipótese em vez de uma certeza está respeitando seu interlocutor. Em um mundo saturado de certezas instantâneas, a maior audácia intelectual é conjugar no condicional, entendendo que, mesmo sabendo o suficiente, ainda há muito a aprender.
Fonte: Cincodias