A escalada de tensões no Oriente Médio, com a guerra envolvendo o Irã, lança uma sombra sobre o fornecimento de fertilizantes essenciais para o agronegócio brasileiro. A dependência do Brasil de insumos importados, especialmente ureia, torna o setor vulnerável a choques geopolíticos e logísticos.
Um gigante de pés frágeis
O Brasil se destaca como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas sua força produtiva esbarra na fragilidade de sua cadeia de suprimentos de fertilizantes. O país importa mais de 90% dos fertilizantes que consome, sendo a Rússia e o Irã fornecedores cruciais de nutrientes como nitrogênio, potássio e fósforo.
A ureia, fundamental para o crescimento das lavouras, tem no Irã um parceiro estratégico. Em 2025, o Brasil importou US$ 72 milhões em fertilizantes do país persa, representando 80% das importações totais iranianas. O Catar, outro fornecedor importante, também utiliza o Estreito de Ormuz, rota comercial vital, para escoar seus produtos.
A relação comercial com o Irã se fortaleceu nos últimos anos, impulsionada pelo sistema barter, onde o produtor rural paga insumos com a colheita futura. Navios brasileiros levam milho e soja ao Irã e retornam com adubo, otimizando a logística e reduzindo custos.
Por que a relação com o Irã cresceu?
A instabilidade no Estreito de Ormuz e ataques a centros petroquímicos iranianos, como o ocorrido em Mahshahr, representam uma ameaça física ao fornecimento de ureia. Diferentemente de sanções econômicas, a interrupção física das rotas comerciais pode ter um impacto devastador.
A escalada de preços dos fertilizantes, que já havia subido com a guerra na Ucrânia, agrava a situação. A tonelada de ureia, que antes custava cerca de US$ 350, agora atinge US$ 550, enquanto o preço de commodities como milho e soja caiu significativamente. Essa disparidade comprime as margens dos produtores.
A recente reforma tributária, com o aumento do PIS/Cofins e Funrural, e a retirada da alíquota zero para fertilizantes e sementes, adicionam mais um peso aos custos de produção. O Índice de Poder de Compra de Fertilizantes (IPCF) já alertava para a dificuldade dos produtores em adquirir adubo.
O que acontece se o fornecimento de ureia parar?
A curto prazo, os produtores podem ser forçados a reduzir a quantidade de fertilizantes utilizados, resultando em menor produtividade por hectare. A médio prazo, a sustentabilidade do setor fica comprometida, com a dificuldade e o alto custo para encontrar fornecedores alternativos.
Países como Índia e Estados Unidos também dependem desses mercados, o que eleva os preços globais. A China, embora possa ser uma opção, tem priorizado seu mercado doméstico, mas pode se tornar um player importante a partir de agosto.
Para mitigar os riscos, o Brasil busca alternativas. O Ministério da Agricultura negociou com a Turquia o uso de seu território para trânsito ou armazenamento de cargas brasileiras. A Petrobras também reativou unidades de produção de fertilizantes, com a expectativa de atender até 35% da demanda nacional nos próximos anos.
No entanto, especialistas apontam que o Brasil tem optado pela solução mais fácil, a importação, negligenciando o desenvolvimento da indústria nacional. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) visa reduzir a dependência externa para 50% até 2050, mas sua efetividade depende de vontade política e da aprovação de programas como o Profert, que incentiva a produção nacional.

Fonte: UOL