A segurança energética voltou a ser prioridade na União Europeia, com a instabilidade geopolítica evidenciando a vulnerabilidade dos países a choques no fornecimento de óleo e gás. Em resposta, os países membros reexaminam seus esforços para diversificar e reduzir a dependência de fontes externas de energia, impulsionando um novo debate sobre a energia nuclear.






A Comissão Europeia considera um aumento no financiamento para o setor nuclear, priorizando a implementação dos chamados Reatores Modulares Pequenos (SMRs) até o início da próxima década. Mesmo na Alemanha, que desativou suas usinas nucleares, o debate sobre o retorno à energia nuclear está em curso.
Henry Preston, porta-voz da World Nuclear Association, afirma que o foco renovado da UE na expansão da energia nuclear é uma resposta estrategicamente sólida para as metas de segurança energética e climática da região, destacando que a energia nuclear continua sendo única em fornecer eletricidade limpa, segura e escalável.
Críticas ao foco em SMRs
Os SMRs são usinas nucleares de próxima geração, projetadas para produzir menos de 300 MW de eletricidade, cerca de um terço da capacidade de reatores convencionais. Seus defensores argumentam que serão mais baratos, rápidos e seguros de implantar.
No entanto, oponentes criticam duramente o foco renovado da UE na energia nuclear. M. V. Ramana, professor da Universidade da Colúmbia Britânica, considera a estratégia equivocada, argumentando que os SMRs acabam custando mais por unidade de energia do que reatores grandes tradicionais. Luke Haywood, do European Environmental Bureau (EEB), descreve a energia nuclear como uma “distração custosa”, afirmando que os SMRs estão a décadas de serem implantados em escala.
Energia nuclear e a rede elétrica
Para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, os países da UE aumentaram o uso de energia eólica e solar, que já fornecem quase metade da eletricidade do bloco. Proponentes da energia nuclear, contudo, argumentam que ela é essencial para fornecer energia de base constante, diferentemente das fontes intermitentes.
Malwina Qvist, da NGO Clean Air Task Force (CATF), defende que as energias renováveis e a geração flexível não são suficientes para atingir uma economia de carbono zero. Ela aponta que a Alemanha, apesar de sua alta geração renovável, emite mais CO2 do que a França, onde a energia nuclear é a principal fonte. Qvist sugere que os SMRs, com seu design modular e custos iniciais mais baixos, podem atender às necessidades de setores industriais de difícil descarbonização.
Por outro lado, Haywood argumenta que a energia nuclear não é um parceiro natural para um sistema energético dominado por renováveis, que necessita de flexibilidade. Ramana reforça a importância da gestão da demanda, armazenamento de bateria e geração flexível, alertando que investir em SMRs pode desviar fundos de caminhos mais promissores.
Segurança dos SMRs
A segurança é uma preocupação persistente para todas as tecnologias nucleares. Os SMRs são considerados mais seguros por alguns devido à sua menor capacidade e uso de sistemas de segurança passivos. Sara Beck, da GRS (organização alemã de segurança nuclear), afirma que declarações gerais sobre a segurança dos SMRs não são possíveis, devido às diferenças técnicas entre os designs. Ela também aponta que o uso de SMRs em novas aplicações industriais pode introduzir riscos adicionais.
Ramana reitera que todas as usinas nucleares, incluindo SMRs, podem sofrer acidentes com contaminação radioativa, e que um método seguro e comprovado para o descarte de resíduos nucleares ainda é elusivo.
Programa de SMRs na UE
Qvist acredita que os SMRs têm um papel a desempenhar diante da crescente demanda por energia livre de carbono e confiável, especialmente para economias em desenvolvimento e setores industriais. Ela enfatiza a necessidade de um programa de SMRs bem executado na UE, focado em designs padronizados e aquisição coordenada, comparando o potencial a um “Airbus para a indústria nuclear da UE”.
Enquanto a Europa lida com a segurança energética em um cenário geopolítico e económico em rápida mudança, o debate sobre energia nuclear continua.
Fonte: Dw