Investidores globais estão em alerta para um possível novo baque nos mercados argentinos após as eleições legislativas deste domingo, observando com cautela o chamado ‘Milei Trade’. A venda frenética que atingiu os mercados do país após a derrota do partido do presidente Javier Milei nas urnas no mês passado deixou um rastro de apreensão.

Gestores de recursos e estrategistas alertam que, embora um terço das cadeiras no Congresso pela coalizão La Libertad Avanza possa gerar uma reação positiva nos mercados, riscos significativos persistem. Um desempenho mais fraco do que o esperado poderá ser interpretado como uma ameaça à agenda de reformas econômicas de Milei e ao fluxo de recursos de resgate injetados pelos EUA para fortalecer a moeda Argentina.
Cenário Eleitoral e Expectativas do Mercado
“Se as eleições forem muito bem e o partido dele conseguir o terço, acho que a Argentina vai se recuperar — mas não quero ficar exposto a um cenário negativo”, afirma Ray Zucaro, diretor de investimentos da RVX Asset Management LLC. Ele prefere manter uma posição neutra, evitando apostas grandes.
Os mercados argentinos apresentaram uma certa estabilização após a intervenção da administração Trump, que incluiu a compra de pesos e a extensão de um socorro de US$ 20 bilhões para evitar uma crise cambial iminente antes da eleição. Os títulos em dólar do país tiveram alta na sexta-feira, com os papéis com vencimento em 2035 avançando quase meio centavo. No entanto, a moeda Argentina caiu 0,9%, fechando a 1.492 por dólar, próxima ao limite mais fraco da banda cambial.
As lembranças das perdas acentuadas de outubro, após a derrota do partido de Milei em Buenos Aires, mantêm os investidores cautelosos. Essa situação forçou bancos de Wall Street a reverterem apostas otimistas e abalou investidores globais que depositavam confiança no economista libertário para reverter anos de inflação alta e calotes da dívida soberana.

Desafios da Agenda de Reformas de Milei
As eleições legislativas representam um teste crucial para a capacidade de Milei em dar continuidade à sua agenda. Embora tenha demonstrado sucesso na redução da inflação, cortes profundos em programas governamentais sem a prometida recuperação econômica desagradaram eleitores. Um escândalo de corrupção envolvendo seu círculo próximo também prejudicou sua imagem de reformador.
A questão central para os investidores é se Milei conseguirá manter apoio suficiente no Legislativo para vetar tentativas da oposição peronista de reverter suas propostas. Sinais de uma possível mudança para uma postura mais conciliatória com adversários políticos também serão observados.
“O verdadeiro teste está na estratégia pós-eleitoral de Milei,” escreveu Diego Pereira, economista do JPMorgan Chase & Co., em nota a clientes. Ele sugere que uma narrativa de “derrota nacional” pode prevalecer se Milei obtiver entre 31% e 32% dos votos e sofrer perdas em diversas províncias. “Ter um ‘terço de veto’ no Congresso não substitui as alianças necessárias para aprovar reformas macroeconômicas críticas; uma mudança da retórica combativa para a governança pragmática é essencial,” adicionou.
Pedro Quintanilla-Dieck, estrategista da UBS, estima que os traders “não esperam um resultado forte” para Milei, com a votação prevista para “na casa dos 30% baixos.”
Dúvidas sobre a Moeda Argentina e Apoio Internacional
Persistem dúvidas sobre a sustentabilidade da atual banda cambial para o peso argentino, amplamente considerada sobrevalorizada. O governo tem investido bilhões de dólares para mantê-la, enquanto investidores e cidadãos antecipam uma desvalorização após a eleição.
Essas preocupações foram acentuadas por comentários do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, indicando que sua administração poderia cortar o apoio financeiro caso a agenda de Milei fosse derrotada. O Morgan Stanley descreve um cenário de “andar em meio ao nevoeiro”, com o partido de Milei obtendo entre 30% e 35% dos votos. Esse resultado manteria o apoio dos EUA, mas o progresso na agenda poderia ser lento, levando o banco a recomendar cautela aos clientes.
Na gestora Gramercy Funds Management, Belinda Hill adota uma postura similarmente cautelosa. “Não acho que alguém possa prever o que vai acontecer na votação,” disse Hill. “Estamos mais focados em entender como Milei vai construir uma coalizão após a eleição e quais políticas virão para determinar o posicionamento correto.” A incerteza sobre o futuro político e econômico da Argentina mantém os mercados em compasso de espera.
Fonte: InfoMoney