Psicanálise Ganha Força em Tempos de Crise e Autoritarismo

A psicanálise, criada por Freud, ganha popularidade em tempos de crise e autoritarismo, oferecendo ferramentas para entender traumas e impulsos autoritários.

A psicanálise tem experimentado um notável aumento de popularidade, com contas dedicadas à teoria freudiana acumulando milhões de seguidores em redes sociais e programas de TV sobre terapia se tornando fenômenos culturais. Publicações internacionais apontam para um verdadeiro “renascimento” da psicanálise, um movimento intelectual e prática terapêutica criada por Sigmund Freud no início do século 20.

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Embora a psicanálise tenha enfrentado ceticismo em alguns círculos científicos, especialmente no mundo anglófono, onde terapias comportamentais e farmacêuticas ganharam proeminência, sua trajetória global é mais complexa. Durante a vida de Freud, institutos psicanalíticos foram estabelecidos em diversas partes do mundo, e a disciplina floresceu ao longo do século 20 em cidades como Paris, Buenos Aires, São Paulo e Tel Aviv, mantendo forte influência clínica e cultural, especialmente na América do Sul.

Resposta à Opressão e Trauma

Um dos fatores que explicam a popularidade da psicanálise em certos países está ligado à história da diáspora judaica e à fuga de intelectuais da Europa Central durante a expansão do Terceiro Reich. Cidades como Londres acolheram Freud e sua família, sendo culturalmente transformadas por esse fluxo de refugiados.

Um fator menos evidente, mas crucial, é a ascensão do autoritarismo. A psicanálise, com seu foco em trauma, repressão, luto e verdade inconsciente, tornou-se uma ferramenta significativa para lidar com a opressão. Em contextos de crises políticas, como na Argentina durante a “guerra suja”, espaços de escuta e fala sobre trauma e perda funcionaram como uma estratégia de resposta e resistência. Em uma cultura de mentiras estatais e silêncio imposto, expressar a verdade tornou-se um ato radical.

Pensadores como Wilhelm Reich, Theodor Adorno e Erich Fromm utilizaram a psicanálise, muitas vezes associada ao marxismo, para compreender a formação e o desejo por personalidades autoritárias diante dos horrores do fascismo europeu. Na Argélia, Frantz Fanon empregou a psicanálise para denunciar os regimes raciais opressivos do colonialismo francês, vendo-a como uma ferramenta essencial de resistência política.

Dar Sentido ao Caos

Atualmente, a psicanálise volta a ganhar força em resposta a novas formas de autoritarismo, demonização de imigrantes e genocídios transmitidos ao vivo. Neuropsicanalistas como Mark Solms, com seu trabalho sobre sonhos e a neurociência, argumentam que a teoria freudiana do inconsciente estava correta desde o início, oferecendo soluções duradouras em contraste com a eficácia de curto prazo de medicamentos.

Um grupo crescente de clínicos e intelectuais, incluindo Jamieson Webster, Patricia Gherovici, Avgi Saketopoulou e Lara Sheehi, reafirma a dimensão política da psicanálise. Conceitos como o inconsciente, a “pulsão de morte”, a bissexualidade universal, o narcisismo, o ego e a repressão ajudam a interpretar o momento contemporâneo, especialmente quando outras teorias se mostram insuficientes.

Em um mundo de mercantilização crescente e atenção fragmentada, a psicanálise valoriza o tempo profundo, a criatividade e a conexão humana. Ela questiona concepções convencionais de gênero e identidade sexual, priorizando as experiências individuais de sofrimento e desejo. As razões para seu ressurgimento refletem as de suas ondas anteriores de popularidade: em momentos de instabilidade política e traumas coletivos, ela oferece ferramentas para dar sentido ao que parece não ter sentido.

A psicanálise fornece um quadro para entender como impulsos autoritários se enraízam em subjetividades individuais e se disseminam pelas sociedades. Em uma era de soluções rápidas e intervenções farmacológicas, ela insiste no valor da atenção prolongada à complexidade humana, recusando-se a reduzir o sofrimento psíquico a desequilíbrios químicos. O interesse renovado também desafia o próprio campo, questionando suposições antigas sobre neutralidade do terapeuta e heterossexualidade como norma, e repensando a prática em diálogo com movimentos de justiça social.

Enquanto as crises políticas se intensificam e as abordagens terapêuticas tradicionais parecem insuficientes, as ideias de Freud sobre a psique humana encontram novos públicos ávidos por compreender a obscuridade dos nossos tempos.

Fonte: UOL

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