O filme O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, convida à reflexão sobre a ditadura militar no Brasil e seus profundos impactos sociais. A obra cinematográfica, dirigida por Kleber Mendonça Filho, desvia-se de narrativas convencionais, utilizando até mesmo uma conhecida lenda urbana do Recife para ilustrar como as violências daquele período de ruptura democrática se normalizaram na sociedade.
A ditadura é apresentada de forma sutil, sem menções diretas. Conforme observa a atriz Laura Lufési em Entrevista ao Estadão, “O filme avança no debate sem falar a palavra ditadura. Trata de pessoas comuns, sem os estereótipos da militância”. Essa abordagem permite que o espectador mergulhe nas consequências do regime por um ângulo diferente, focado em indivíduos comuns.
A Lenda da Perna Cabeluda como Metáfora da Ditadura
Kleber Mendonça Filho incorpora a inusitada lenda folclórica da Perna Cabeluda para expor violências de uma época em que qualquer manifestação poderia ser vista como subversiva. A criatura mítica, que supostamente agredia pessoas durante a noite, figura em uma das sequências mais aclamadas do longa. A crítica de cinema Barbara Demerov, em conversa com o Estadão, destaca a autoralidade de Mendonça Filho: “Ele banca esteticamente e na narrativa… Você pode não entender exatamente a história da Perna Cabeluda, mas entende a metáfora e como é usada para abafar outras coisas”.
A atriz Laura Lufési complementa, explicando a visão do diretor: “É um filme é sobre ditadura, mas que o Kleber vai tão no micro, que você vê pelo olhar do Marcelo – personagem de Wagner Moura que conquistou o troféu de melhor ator no Globo de Ouro. Ele é um agente, ele está fugindo do quê? As pessoas poderiam pensar: o que é essa perna cabeluda? Mas o Kleber me disse numa entrevista que os espectadores entenderam no exterior”.
Origem da Lenda Urbana: De Noticiário a Fenômeno Cultural
Embora as histórias da Perna Cabeluda tenham sido resgatadas para sugerir um encobrimento de agressões ocorridas durante a ditadura, a lenda, em sua origem, não possuía essa conotação. Em 1994, durante a gravação de um documentário experimental sobre jornalismo policial no Recife, o radialista Jota Ferreira revelou ser o criador da história. Ferreira narrou que a ideia surgiu de forma improvisada para suprir a escassez de notícias que preenchiam o noticiário da rádio onde trabalhava.
Geraldo Freire, âncora do programa na época, reconfirmou a versão em Entrevista à Coluna do Estadão: “Praticamente Jota Ferreira estava começando. O programa era das 4h às 8h da manhã, e a gente só dava sangue. Um dia de manhã sem muita notícia, Jota falou que não tinha mais o que dizer. Em certo momento avisou: ‘Arrumei uma solução, passa o som aqui’. Aí ele relatou o caso de uma mulher agredida pela Perna Cabeluda”.
Para a surpresa dos criadores, nos dias seguintes, diversas pessoas agredidas começaram a relatar que eram vítimas da tal perna. “A coisa bombou. É tanto que já fizemos mil trabalhos sérios na vida, desde esse tempo, mas nada apareceu tanto como essa perna cabeluda. Mas cada dia ela cresce, e agora virou filme. O grande criador é Jota Ferreira e ninguém mais”, concluiu Freire, destacando a longevidade e o impacto da lenda.
Fonte: Estadão