O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter um tema espinhoso em sua pauta de conversa com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um encontro previsto para domingo. Além de tarifas sobre produtos brasileiros e a Lei Magnitsky, a crescente tensão militar dos EUA em relação à Venezuela e a possibilidade de uma intervenção americana no país sul-americano surgem como um ponto crucial.
A Diplomacia Brasileira e a Doutrina Monroe
Segundo o cientista político Octavio Amorim Neto, da FGV-EBAPE, a diplomacia brasileira historicamente busca evitar ataques de potências em território sul-americano. Essa postura remonta à Doutrina Monroe, que visava impedir intervenções europeias nas Américas. Enquanto no início do século XX o Brasil via essa doutrina com bons olhos, o século XX testemunhou os EUA se tornarem uma potência intervencionista na região.
Um exemplo histórico citado por Amorim Neto é a Guerra das Malvinas em 1982. O Brasil, embora formalmente neutro, comunicou discretamente à primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, via Ronald Reagan, que ataques a unidades militares argentinas no continente seriam intoleráveis. A guerra, então, foi restrita às ilhas.
O Risco de uma Intervenção na Venezuela
Amorim Neto defende que o Brasil deve persuadir os Estados Unidos de que uma intervenção militar direta na Venezuela seria desastrosa. O objetivo provável de tal intervenção seria a deposição de Nicolás Maduro, possivelmente em favor de nomes como María Corina Machado ou Edmundo González. Contudo, o caos de uma intervenção poderia levar a Venezuela a uma guerra civil, gerando uma nova crise migratória no Brasil, que já acolheu mais de 550 mil venezuelanos desde 2015. A instabilidade geopolítica na América do Sul, já marcada por violência e tráfico de drogas, seria amplificada.
A postura de Donald Trump em tratar narcotraficantes como terroristas também preocupa o Brasil, pois pode justificar futuras intervenções americanas em outros países da região. O cientista político sugere que, caso a Venezuela entre na conversa com Trump, Lula deve ter uma abordagem firme, mas discreta, evitando confrontos públicos como os do presidente colombiano, Gustavo Petro.
O Objetivo do Brasil na Conversa com Trump
“O fundamental é que, do diálogo entre as duas maiores nações das Américas, resulte uma moderação da Casa Branca no que diz respeito a suas intenções em relação à Venezuela e à América do Sul”, conclui Amorim Neto. A expectativa é que a reunião promova um freio nas ações americanas, buscando a estabilidade regional.
Fonte: Estadão