A produção de cacau em São Paulo, que conta atualmente com cerca de 650 hectares cultivados, começa a ganhar força. A expectativa é que, em uma década, a área cultivada alcance 3 mil hectares. Este crescimento é impulsionado pela proximidade com as maiores indústrias processadoras de cacau do Brasil, como a Barry Callebaut e a Cargill, que possuem fábricas de chocolate na região Sudeste, apesar de suas principais áreas de processamento de cacau estarem no Pará e na Bahia.
A fábrica da Barry Callebaut em Extrema (MG), por exemplo, está a apenas 100 quilômetros da capital paulista. A Cargill, embora processe cacau em Ilhéus (BA), opera uma fábrica de chocolate em Porto Ferreira (SP). Essa vantagem logística é um dos fatores cruciais para o desenvolvimento da cacauicultura paulista.
Fernando Miqueletti, engenheiro agrônomo da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, destaca que a produção paulista também se beneficia pela facilidade de certificação em critérios de sustentabilidade. “Os produtores paulistas vão ter essa facilidade competitiva”, afirma Miqueletti.
Coi Belluzzo, empreendedor que se associou a um agricultor de cacau no Pará, vê grande potencial na comercialização dos produtos no Sudeste. Ele explica que muitos produtores da região amazônica enfrentam dificuldades para escoar suas safras, abrindo espaço para iniciativas como a dele, focada na cadeia de comercialização.
A produção de cacau em São Paulo ainda está em fase inicial, com as plantas começando a produzir. Espera-se um aumento significativo no volume da safra em 2027. Diante da exigência de volume por parte das grandes multinacionais, muitos produtores locais estão optando por processar a amêndoa e produzir seu próprio chocolate.
Diego Francisco Ferreira, recém-formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), é um exemplo dessa tendência. Ele retornou à sua cidade natal, Mendonça (SP), e plantou 200 mudas de cacau. Com as primeiras colheitas, ele já utiliza o cacau para produzir chocolates para a marca de sua mãe, JuCacau. O investimento em irrigação foi de cerca de R$ 50 mil, mas o retorno já vem das bananas cultivadas em consórcio e do próprio cacau.
Novos produtos a partir do cacau
Além da produção de chocolate, há um forte incentivo para o desenvolvimento de novos produtos derivados do cacau, como chás e até bebidas espumantes. Essa frente de pesquisa é liderada pelo CCD Cacau 360°, um centro de desenvolvimento de soluções inovadoras para a cadeia produtiva do cacau em São Paulo, com sede no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e na Unicamp, em Campinas (SP).
“De um quilo de cacau, se aproveita apenas de 6% a 7% para fazer chocolate. Queremos desenvolver produtos com o restante”, explica Miqueletti. Belluzzo complementa, mencionando o interesse de restaurantes em produtos artesanais como café, cerveja e até champanhe feitos a partir do cacau.
Fonte: Estadão