Libaneses deslocados enfrentam incerteza e perigo em meio a conflitos

Famílias libanesas enfrentam deslocamento forçado, incerteza e perigo em meio a conflitos intensificados, com centenas de milhares de crianças afetadas.

Fatme A. tenta manter uma rotina normal em meio a abrigos improvisados, colchões empilhados e outras famílias abrigadas nas proximidades. Ela está nos prédios Azarieh, no centro comercial de Beirute, que se tornaram um refúgio para centenas de libaneses deslocados. Cerca de 250 famílias vivem em tendas improvisadas, com acesso a água, cozinha comunitária e bens distribuídos por organizações de ajuda. No entanto, o espaço é limitado e a privacidade inexistente.

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Fatme passa a maior parte do tempo em sua tenda, sentindo-se constrangida até para ir ao banheiro devido às filas. Ela confidencia que se sente envergonhada e prefere ficar em seu abrigo de pano, rodeada por sacolas, cobertores e os poucos pertences que conseguiu carregar ao fugir de casa. Ela vive com o marido, a filha de 7 anos e a mãe, compartilhando o pouco espaço disponível. Seu marido, carpinteiro, ajuda outros no prédio com reparos e organização, o que permitiu à família conseguir duas tendas.

Durante o dia, ela tenta manter a normalidade, mas as noites são mais difíceis. As explosões são intensas, e muitas pessoas dormem vestidas por medo. O conflito no Líbano se expandiu, com ataques israelenses atingindo áreas além das zonas de conflito conhecidas, incluindo áreas centrais da capital, muitas vezes sem aviso prévio.

Conflito se expande no Líbano

O grupo Hezbollah, com forte atuação militar e política no Líbano e aliado do Irã, é considerado uma organização terrorista por diversos países. O Ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou a intenção de criar uma zona de segurança de 30 quilômetros dentro do sul do Líbano, com a destruição de casas em vilarejos próximos à fronteira. O Ministro da Defesa libanês, Michel Menassa, interpretou essas declarações como uma intenção clara de impor uma nova ocupação e deslocar centenas de milhares de cidadãos.

Ministros das Relações Exteriores de 10 países europeus, juntamente com a União Europeia, pediram a Israel que respeite a integridade territorial do Líbano. No entanto, para os civis afetados, essas palavras não trazem conforto, pois sentem que não há lugar seguro.

Nenhum lugar é seguro

Fatme e sua família viviam em Ouzai, um bairro densamente povoado na periferia sul de Beirute, conhecido como Dahiyeh. Dahiyeh, que significa “subúrbio” em árabe, é uma área extensa e vibrante, com lojas, restaurantes e supermercados, mas também um refúgio para migrantes e deslocados devido a crises e falta de apoio estatal. Para muitos, era um lar seguro e estável, com uma vida familiar normal.

No entanto, no final de fevereiro, ataques israelenses e do Irã intensificaram o conflito. O Hezbollah, em resposta à morte de seu líder, Ayatollah Ali Khamenei, juntou-se à guerra, disparando foguetes e drones contra Israel, que respondeu com ataques aéreos. A violência no Líbano escalou, forçando famílias como a de Fatme a fugir novamente, priorizando a segurança da filha, que sofre com o trauma da guerra anterior.

Sem cessar-fogo real

Apesar de um cessar-fogo oficial ter sido arranjado em novembro de 2024, a violência continuou com ataques israelenses e insegurança crescente. Relatos indicam milhares de violações do cessar-fogo e centenas de mortos por fogo israelense. Jeremy Ristord, chefe de programas no Líbano para Médicos Sem Fronteiras, afirmou que os ataques israelenses não apenas destroem infraestrutura, mas também corroem os pilares da vida diária e da recuperação.

A filha de Fatme, ainda assustada com ruídos altos e explosões, motivou a decisão da família de deixar sua casa novamente. Eles dirigiram em meio a engarrafamentos de outras famílias com a mesma ideia, dormindo no carro antes de encontrar abrigo nos prédios Azarieh. Fatme expressa saudade de sua casa, sua vida e sua rotina, sentindo que suas vidas foram viradas de cabeça para baixo.

Mesmo nos abrigos, a filha de Fatme se assusta com barulhos altos, e Fatme a conforta, esquecendo seu próprio medo. A incerteza sobre o futuro é grande, com relatos de milhares de mortos e feridos, e mais de 1.1 milhão de pessoas deslocadas, incluindo centenas de milhares de crianças. O coordenador de alívio de emergência da ONU, Tom Fletcher, alertou para um ciclo de deslocamento coercitivo, descrevendo-o como um último recurso doloroso para preservar a dignidade.

Em meio às dificuldades, Fatme encontra momentos de esperança ao ver as crianças brincando, especialmente sua filha. Esses momentos a fazem acreditar que tudo ficará bem. No entanto, o som de drones israelenses e explosões distantes a trazem de volta à realidade: uma família, duas tendas e uma vida improvisada. Fatme afirma que sua família não é a primeira nem será a última a ter que fugir, e que eles apenas precisam resistir, com a esperança de que o mundo saiba que eles viviam bem e com dignidade.

Fonte: Dw

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