A visão tradicional sobre a globalização, consolidada a partir dos Anos 80, sugere uma economia mundial cada vez mais sincronizada. Essa perspectiva indicava que ciclos econômicos e financeiros, incluindo bolhas especulativas, afetariam a maioria dos países de maneira semelhante, impactando o PIB, o crédito, a inflação e os preços dos ativos. Nessa ótica, a globalização reduziria a autonomia das políticas econômicas nacionais, pois os indicadores responderiam majoritariamente a tendências internacionais.
Contudo, um novo estudo conduzido por economistas do Banque de France, Antoine Camous, Eric Monnet e Damien Puy, desafia essa generalização. A pesquisa, baseada em dados trimestrais de PIB, preços, crédito, juros e ações de países desenvolvidos e emergentes entre 1950 e 2019, recuperou séries históricas financeiras do FMI.

Divergência entre Preços e Quantidades
Um dos achados centrais da investigação é que o fator global exerce influência significativamente maior sobre indicadores de preços (inflação, ativos) do que sobre indicadores de quantidades (PIB, crédito). A sincronização global dos preços de ativos aumentou progressivamente da década de 50 até o início dos anos 2000, com a variância explicada por tendências mundiais comum saltando de 40% para 60%.
Trajetória Distinta do PIB e Crédito
Em contraste, a sincronização do PIB e do crédito apresentou uma trajetória distinta. Já era considerável durante o regime de Bretton Woods (1950-1971), período de câmbio fixo e dólar lastreado em ouro. Surpreendentemente, essa sincronização não aumentou com a era da globalização a partir dos anos 80. Pior ainda, a partir da crise financeira global de 2008-2009, a sincronização global do PIB e do crédito diminuiu, respondendo hoje por apenas 20% da variação desses indicadores em tempos normais.
Impacto da Abertura Comercial e Financeira
O estudo também demonstra que a abertura comercial dos países tende a aumentar a sincronização do PIB. No entanto, a abertura financeira produz resultados mistos: embora amplie a sincronização dos preços dos ativos, ela reduz o movimento comum dos PIBs. A integração financeira, ao expandir oportunidades de compartilhamento de riscos e aumentar a correlação de preços de ativos, também incentiva a adoção de tecnologias mais arriscadas e de alto retorno, elevando a volatilidade do produto doméstico e diminuindo a sincronização externa.
Países com maior abertura financeira experimentaram maior sincronização de seus mercados de ativos com o ciclo financeiro global, mas menor sincronização de seu PIB com o ciclo econômico mundial. Os autores observam que, no longo prazo e excluindo grandes crises financeiras, a integração financeira Internacional reduziu o movimento comum do produto (PIB) nos países. As condições de crédito para o setor privado, em termos quantitativos, parecem relativamente isoladas do ambiente externo, exceto em momentos de choques globais extremos.
Implicações para Políticas Econômicas
Uma implicação importante é que a integração financeira não é um pré-requisito para ciclos econômicos globais, uma vez que estes já existiam no regime de Bretton Woods, mesmo com rigorosos controles de capitais. Embora a modesta sincronização do PIB e do crédito confira aos países considerável autonomia em suas políticas econômicas, o trabalho dos Bancos Centrais se torna mais complexo. Isso ocorre porque os BCs utilizam instrumentos como a taxa básica de juros para influenciar tanto variáveis com pouca sincronização Internacional (atividade econômica, crédito) quanto aquelas altamente sincronizadas (preços em geral, incluindo ativos financeiros).
Fonte: Estadão