Um livro escrito há mais de 100 anos, “Nós”, de Eugênio Zamyatin (1921), serve como um alerta sobre os riscos de um mundo onde a liberdade é sacrificada em nome da ordem.
A obra é considerada precursora de distopias como “Admirável Mundo Novo” e “1984”, tendo inclusive inspirado George Orwell. “Nós” explora os perigos que a tecnologia e a ciência podem representar para a humanidade quando aplicadas de forma extrema.
No romance, os indivíduos são identificados por números, suas vidas são rigidamente controladas por horários e vivem em casas de vidro, permitindo a vigilância constante. O mundo é governado por um “Estado único” sob o comando do “Benfeitor”. A tecnologia e a racionalidade buscam eliminar qualquer risco antes que ele ocorra, tornando crimes impossíveis e, consequentemente, desnecessários de punição.
Esse cenário contrasta com a ideia original da internet, que nasceu como uma praça global libertária. Embora ambos os cenários utilizem ciência e tecnologia, a internet permitiu que todos tivessem voz, gerando também caos. Atualmente, observa-se uma tendência de transformar a internet em uma “rede de controle”, muitas vezes justificada pela necessidade de proteger os mais vulneráveis.
A proteção buscada em uma praça de proporções mundiais pode levar a restrições de acesso ou segmentação, como uma “lista branca”. No entanto, garantir que todos os participantes de um ambiente global e descentralizado ajam de forma uniforme é um desafio. O controle pode ocorrer na entrada ou pela regulação do comportamento, mas a aplicação de normas locais em um contexto global é complexa.
A necessidade de um “dever de cuidado” é inquestionável, mas um “dever” mal calibrado pode evoluir para “dever de monitoramento” ou “dever de prevenção”. Isso pode restringir o anonimato legítimo e a possibilidade de dissidência, ao mesmo tempo em que se tenta impedir abusos.
Tornar abusos impossíveis é um objetivo inatingível que pode desumanizar. Essa abordagem favorece os poderosos, que já utilizam tecnologia e algoritmos para dominar interações. Em vez de focar na punição de criminosos reais, trata-se todos como potenciais infratores, antecipando danos antes que ocorram.
Zamyatin, em “Nós”, apresenta um dilema: “… no paraíso foi dada uma escolha: felicidade sem liberdade, ou liberdade sem felicidade. Não há terceira alternativa”. A solução para esse dilema pode residir na busca por temperança e moderação, seguindo o antigo aforisma de Horácio: “est modus in rebus”, há uma medida nas coisas.
Fonte: Estadão