A Favela do Moinho, um dos símbolos das contradições urbanas de São Paulo, entra em sua fase final de desocupação. Localizada na região central, a comunidade, que já abrigou milhares de pessoas, agora vê o esvaziamento progressivo, com cerca de 40 famílias remanescentes.
O encerramento do processo de desmontagem marca o fim de um longo período de disputas judiciais, protestos e negociações. A operação tem sido conduzida com base em um trabalho técnico que visa avançar sem ampliar riscos em uma área já fragilizada pela ocupação precária. Segundo Ticiane D’Alóia, diretora da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo (SDUH), o cadastramento identificou 931 edificações, muitas em condições precárias.
Engenharia avalia estruturas em área de risco
Engenheiros do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP) são responsáveis por avaliar a estabilidade das estruturas. Em um ambiente onde construções foram erguidas sem padrão técnico ao longo de décadas, cada decisão de demolição ou preservação exige cautela para evitar acidentes.
O cadastramento da CDHU identificou 758 residências, 38 comércios e 7 edificações religiosas ou comunitárias. Os laudos do Crea funcionam como um mapa de risco em tempo real, orientando equipes em campo e definindo prioridades em uma fase sensível, com a convivência de casas vazias, estruturas condenadas e moradias ainda ocupadas.
Desocupação avança com subsídios e auxílio-aluguel
A desocupação, acelerada desde 2025, tem ocorrido por meio de acordos que incluem subsídios habitacionais e auxílio-aluguel, com valores que chegaram a R$ 1,2 mil com a participação do governo federal. Apesar dos acordos, o processo foi marcado por resistência, incertezas e o risco de perda de vínculos sociais e econômicos.
A remoção foi considerada a única alternativa pelo poder público, pois a área é classificada como não regularizável. Opções como crédito habitacional, que permite às famílias escolherem para onde ir, têm acelerado o processo desde março do ano passado. Negociações com lideranças locais também foram parte da complexidade social do território.
Requalificação urbana prevê novo espaço público
Com a desmontagem praticamente concluída, o terreno do Moinho entra em projetos de requalificação urbana, incluindo a criação de um parque. A proposta visa transformar uma área marcada por vulnerabilidades em um novo espaço público para a cidade.
O fim da favela simboliza o debate sobre como conciliar a renovação de áreas centrais com o direito à moradia e evitar que soluções urbanísticas desloquem populações vulneráveis. O Moinho permanece como um caso emblemático de São Paulo, um ponto de tensão entre a cidade formal e informal.

Fonte: Estadão