A experiência de cidadãos cubanos, como a de Evelyn, desafia interpretações simplistas sobre a realidade do país. Ela expressa desconforto com visões que atribuem todos os problemas exclusivamente ao embargo norte-americano, argumentando que a situação atual é resultado de 67 anos de um regime ditatorial, com limitações internas na gestão de recursos e na liberdade de expressão.


Evelyn relata que seu apartamento em Havana foi construído com esforço familiar e apoio de políticas públicas, que historicamente ampliaram o acesso à moradia, educação e saúde. No entanto, ela reconhece que esses benefícios não alcançaram toda a população, citando casos de famílias vivendo em cômodos pequenos. A memória familiar registra avanços desde a Revolução de 1959, com melhorias significativas na qualidade de vida.
Contudo, a situação atual é percebida como pior do que na década de 1990. A abertura para o mundo, através da internet, expõe as carências e a falta de itens essenciais. Desde 2021, Cuba tem enfrentado um intenso fluxo migratório, com centenas de milhares de pessoas deixando a ilha. Evelyn foi uma delas, migrando para o Brasil em 2022, mas após um ano de dificuldades com trabalho informal, moradia e educação precária para a filha, decidiu retornar a Havana.
Apesar das restrições impostas pelo embargo dos EUA, Evelyn enfatiza que essa não é a única causa da crise cubana. Ela aponta para um problema interno na forma como os recursos foram administrados ao longo das décadas. Sua trajetória pessoal demonstra que a migração não resolveu os problemas de acesso, oportunidade e futuro, e o retorno também não trouxe soluções definitivas.
A percepção de Evelyn sobre a política em Cuba é reveladora: “Em Cuba, discordar não é uma questão política.” Essa frase ilustra o ambiente de baixa tolerância à dissidência, com restrições à expressão pública e repressão a protestos, especialmente após as manifestações de 2021. A figura de Fidel Castro é tratada quase como religião, mas a realidade atual diverge das promessas feitas.
Evelyn personifica a tensão atual em Cuba, reconhecendo os avanços sociais que beneficiaram sua família, mas também apontando os limites impostos ao desenvolvimento e à liberdade. Sua experiência desmonta a ideia de Cuba como uma exceção bem-sucedida e a noção de que a migração é uma solução automática para uma vida melhor.
Fonte: UOL