A atividade econômica brasileira deve receber em 2026, ano eleitoral, estímulos que somarão R$ 742 bilhões. Esse montante representa um crescimento de 139% em comparação com 2025 e equivale a 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB).


A estimativa é da gestora ARX Investimentos. O valor é impulsionado pela concessão de mais crédito pelo BNDES, pela expansão do consignado privado e pelo caixa de estados e municípios. O uso de fundos públicos e privados com participação da União para impulsionar gastos e crédito também lidera a lista, além da ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.
O cálculo considera apenas gastos não obrigatórios, projetando estímulos adicionais do governo à demanda, que inclui consumo das famílias e investimentos. Estão incluídos incentivos fiscais contabilizados no Orçamento e medidas parafiscais, que não impactam o resultado primário, além de ações via crédito.
Economia em ritmo incompatível com equilíbrio
Gabriel Barros, economista-chefe da ARX, afirma que o excesso de estímulos à demanda mantém a economia crescendo em ritmo incompatível com seu equilíbrio. Isso pressiona a inflação, corrói a renda e eleva os juros. Consequentemente, aumenta o custo financeiro e o comprometimento da renda das famílias, piorando a trajetória da dívida pública.
Juros elevados podem limitar efeito dos incentivos
Para o economista André Perfeito, a série de incentivos à atividade econômica, aliada a um cenário de desemprego em mínima histórica, pode não gerar o efeito desejado devido à taxa básica de juros elevada, atualmente em 14,75% ao ano. Ele ressalta que, embora estimular investimentos de longo prazo seja importante, o Brasil vive um momento de sobreaquecimento econômico. A energia excessiva no motor não se reflete em tração na roda, pois empresários enfrentam dificuldades para investir e famílias estão endividadas pelos juros altos.
Cenário fiscal e riscos políticos
Para este ano, a projeção de especialistas é que a alta das receitas com royalties do petróleo ajude o governo a cumprir a meta fiscal. No entanto, o cenário fiscal se complica a partir do próximo ano. Economistas e investidores apontam que a relação dívida/PIB, atualmente em 79,2%, deve iniciar 2027 acima de 83%.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, alerta que será inescapável um plano de contenção de gastos para o próximo ano. O temor do mercado financeiro é que a polarização política amplie o arsenal de medidas para estimular a economia. Riscos incluem possíveis incentivos a caminhoneiros devido à alta do diesel ou ações para limitar os juros do cartão de crédito.
O governo tem buscado caminhos para transferir mais renda às famílias e manter a economia aquecida, o que pesa o cenário para 2027. O aumento de gastos em anos eleitorais não é privilégio de nenhum partido; em cenários de polarização política, o populismo fiscal aumenta.
Um estudo sobre governos anteriores mostrou que os gastos públicos cresceram no ano da disputa pela reeleição, com o uso de mecanismos para tentar encobrir esse aumento de despesas. O atual cenário político conturbado também incentiva mais gastos, na visão de investidores.
Apesar das preocupações fiscais, a dívida pública não está tão ameaçada pelo canal de transmissão do câmbio, pois o Brasil é um grande exportador de petróleo, o que tende a amortecer o choque da disparada da commodity. Investidores buscam países com baixo risco geopolítico e grande exportador de petróleo, o que confere atratividade ao Brasil.
O Ministério da Fazenda afirmou que dados de um estudo da pasta mostram que o impulso de todos os gastos públicos à economia foi negativo durante a maior parte de 2025, em consonância com o ciclo econômico mais aquecido e em coordenação com a política monetária. Para 2026, diante da expectativa de desaceleração da atividade, espera-se um impulso positivo. A pasta assegura que as regras fiscais vigentes garantem previsibilidade e disciplinam o crescimento das despesas, inclusive em anos eleitorais, e que a estabilização da dívida está no horizonte.
Fonte: UOL