A vida em Pequim é marcada pela onipresença das entregas. A cidade se adaptou a um modelo onde praticamente qualquer produto, de refeições a itens de vestuário, pode ser entregue rapidamente. Essa dinâmica transforma o trânsito, dominado por entregadores com capacetes coloridos, identificando as diversas plataformas de serviço.




Nesse cenário, Hu Anyan compilou suas memórias de trabalhos precarizados no país, especialmente como entregador de plataformas digitais, em seu primeiro livro. A obra detalha rotinas extenuantes de mais de 70 horas semanais, o contato com benefícios sociais limitados, pagamentos insuficientes e a falta de descanso adequado.
Hu relata como a situação de trabalho o transformava, tornando-o mais impaciente e irritado. O livro, que retrata a realidade da engrenagem do comércio eletrônico chinês, nasceu de um blog criado durante a pandemia para registrar seu cotidiano, que se tornou viral e posteriormente um best-seller na China.
O autor expõe a necessidade de aguentar dias de trabalho não remunerado na esperança de conseguir uma colocação, e como pausas para comer ou ir ao banheiro eram calculadas em termos de perda financeira. Ele revela que os entregadores arcam com a maior parte dos prejuízos em ocorrências, como um incidente que lhe custou cerca de R$ 750.
Hu conta que muitos clientes desconhecem o nível de automação da indústria, acreditando que trabalhos braçais noturnos já sejam realizados por máquinas. Ele descreve a surpresa dos leitores ao saberem que o trabalho físico pesado ainda existe nas operações logísticas modernas.
A obra não se limita ao período como entregador, reunindo relatos de 19 empregos em diferentes localidades. Em cidades como Xangai, Hu atuou em diversas funções, evidenciando que, apesar das diferenças, a exaustão física e emocional e a baixa remuneração são o denominador comum.
Fonte: UOL