O futuro político do Rio de Janeiro está em suspense, com o Supremo Tribunal Federal (STF) definindo os próximos passos para o estado, que atravessa uma crise institucional sem precedentes. A corte julgará se a eleição para o mandato-tampão será direta ou indireta. Atualmente, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto, comanda o Executivo fluminense, decisão tomada pelo ministro Cristiano Zanin.




Especialistas em ciência política apontam que as intervenções do STF contribuem para a insegurança jurídica no estado. No entanto, as causas da crise atual são anteriores à desintegração da linha sucessória. A hegemonia do MDB, que governou o Rio por 12 anos com Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, não deu lugar a um grupo com estrutura similar. Em contraste, o mandato do ex-governador Cláudio Castro (PL) foi marcado pela fragilidade política, o que contribuiu para a instabilidade no poder.
Fragilidade da gestão Castro e o vácuo deixado pelo MDB
Paulo Henrique Cassimiro, professor de ciência política da Uerj, afirma que o grupo de Castro não se consolidou no poder devido à sua figura fraca, sem trajetória própria e com hesitação em relação ao bolsonarismo, além de permitir corrupção em seu governo. O desmonte de Castro e seus aliados em ano eleitoral é um sintoma da falta de ocupação do vácuo deixado pelo MDB.
O MDB governou o Rio por 12 anos, fortalecendo-se com alianças governamentais. No entanto, escândalos de corrupção levaram à queda de Cabral e Pezão. Eduardo Paes, por outro lado, manteve-se relevante, mas em outro partido.
A ascensão de outsiders e a instabilidade política
Em 2019, Wilson Witzel assumiu o estado como um outsider, mas sofreu impeachment dois anos depois. Castro, então vice-governador, assumiu o cargo e foi reeleito. A crise atual ganhou contornos complexos quando Castro renunciou na véspera de um julgamento no TSE que poderia cassar seu mandato, buscando resguardar suas chances de candidatura ao Senado e manter influência na eleição indireta. O TSE o declarou inelegível por abuso político e econômico nas eleições de 2022.
A intenção de Castro era que Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, assumisse o Executivo, já que o vice-governador havia renunciado. Contudo, Bacellar está preso e afastado da Alerj, sob suspeitas de envolvimento em vazamento de informações. A imprevisibilidade aumentou quando o ministro Luiz Fux alterou as regras para a eleição indireta em caso de dupla vacância, determinando voto secreto e respeito ao prazo de desincompatibilização.
Decadência socioeconômica e a crise política no Rio de Janeiro
Mayra Goulart, professora de ciência política da UFRJ, destaca a fragilidade de Castro como a origem da crise, sem base eleitoral própria ou espaço em uma legenda forte. A desconfiança do bolsonarismo em relação a Castro também foi um fator, com atritos durante a pandemia.
Isabel Uchôa, pesquisadora da UFFRJ, aponta que a ascensão da direita não retirou o estado do controle de antigas famílias que usaram a retórica bolsonarista para expressar antipetismo. Castro, segundo ela, não se resumiu ao bolsonarismo, mas o utilizou conforme a necessidade política.
A reportagem da Folha aponta que a derrocada do Rio de Janeiro se deve, em grande parte, à corrupção policial e ao crime organizado. A fragilidade das dinâmicas produtivas retroalimenta a política, e a decadência socioeconômica expõe o estado ao crime organizado.
Cassimiro sugere que a fusão do estado da Guanabara com o Rio de Janeiro durante a ditadura foi um erro, sobrecarregando a capital com problemas estaduais e falta de atividade econômica em outros municípios. Ele conclui que o estado do Rio de Janeiro é ingovernável.
Fonte: UOL