Brasil não terá candidata à Presidência pela primeira vez em 20 anos

Brasil se aproxima de eleição presidencial sem candidatas mulheres, um cenário inédito em 20 anos, refletindo desafios na representatividade política feminina.

Pela primeira vez em duas décadas, o Brasil se aproxima de uma eleição presidencial sem nenhuma candidata mulher, mesmo entre partidos menores.

Os pré-candidatos anunciados até o momento são todos homens: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Aldo Rebelo (Democracia Cristã), Cabo Daciolo (Mobiliza) e Augusto Cury (Avante).

Em eleições passadas, o país contou com mulheres na disputa, como a ex-presidente Dilma Rousseff, eleita em 2010 e 2014. Outras candidatas, como Simone Tebet em 2022 e Marina Silva em 2010 e 2014, embora não tenham alcançado posições de destaque, contribuíram para o debate sobre a chamada terceira via.

No pleito anterior, Soraya Thronicke foi apoiada pelo União Brasil, terminando em quinto lugar. Em 2006, Heloísa Helena representou o PSOL. Candidaturas femininas em partidos menores também ocorreram, como Livia Maria Pio (PN) em 1989, Ana Maria Rangel (PRP) em 2006, Vera Lúcia (PSTU) em 2018 e Sofia Manzano (PCB) em 2022.

Desde a redemocratização, apenas as eleições de 1994 e 2002 não tiveram mulheres como candidatas à Presidência. Em 2002, Roseana Sarney (MDB) chegou a cogitar a candidatura, mas desistiu.

Considerando a alta incidência de feminicídio e o fato de as mulheres representarem mais da metade do eleitorado, a ausência de representatividade feminina no cargo máximo da República é um ponto de atenção.

Cenário político dificulta candidaturas femininas

Cientistas políticos apontam que a polarização e a acirrada disputa esperada para 2026 tornam o cenário ainda mais desafiador para as mulheres.

“As lideranças partidárias não consideram mulheres lideranças fortes. Quando a disputa está muito acirrada, essas lideranças, que são majoritariamente homens, simplesmente não querem arriscar”, explica a cientista política Débora Thomé. Ela acrescenta que isso não impede que mulheres vençam, mas sim que elas consigam passar pelo crivo dos homens que dominam os partidos.

Michelle Bolsonaro e a sucessão familiar

O caso de Michelle Bolsonaro exemplifica essa dificuldade. Apesar de apresentar bom desempenho em pesquisas de intenção de voto, a ex-primeira-dama foi preterida por Jair Bolsonaro em favor do filho Flávio Bolsonaro. O PL seguiu a decisão, pois Flávio possui mais conexões internas no partido, garantindo maior apoio.

Ausência de mulheres na vice-presidência

As negociações para as chapas majoritárias também indicam pouca chance para mulheres ocuparem o cargo de vice-presidente. Lula já definiu Geraldo Alckmin como seu vice, sem considerar outras possibilidades.

No centrão, houve sugestões para que Flávio Bolsonaro considerasse a senadora Tereza Cristina como vice. No entanto, o entorno de Bolsonaro tem se oposto, repetindo o cenário de 2022, quando o general Braga Netto foi escolhido.

A realidade política brasileira demonstra uma contradição: enquanto políticos discursam sobre a importância da agenda feminina e implementam medidas, eles se recusam a dividir o poder real com mulheres que buscam ascensão política.

Fonte: Estadão

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