BC Isolado na Inflação: Ex-Dirigentes Criticam Política Fiscal de Lula

Ex-dirigentes do BC criticam política fiscal de Lula e alertam: BC está isolado no combate à inflação. Juros altos devem persistir.
Ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, em declaração criticando a política fiscal e o isolamento do BC no combate à inflação. Ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, em declaração criticando a política fiscal e o isolamento do BC no combate à inflação.

A política fiscal mais expansiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dificulta o controle da inflação e deve obrigar o Banco Central (BC) a manter a Taxa Selic em 15% por mais tempo. Essa é a visão de ex-dirigentes da autoridade monetária e economistas do mercado financeiro, que apontam o BC como uma instituição isolada na Luta contra a alta de preços.

Ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, em declaração.
Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC, critica a falta de apoio à política monetária.

BC Enfrenta Contra-Corrente Governamental

“O BC está praticamente isolado nessa luta contra a inflação. E, mais ainda, ele enfrenta uma contra-corrente do Governo“, afirma Gustavo Loyola, sócio da consultoria Tendências e ex-presidente do Banco Central. Segundo ele, uma política fiscal mais “gastadora” pode levar a autoridade monetária a atrasar o início da queda dos juros, prevendo que a Selic só comece a ceder no primeiro trimestre de 2026.

Com o relógio eleitoral em contagem regressiva para o próximo ano, o Palácio do Planalto tem intensificado a criação e ampliação de programas sociais, visando impulsionar a popularidade do presidente Lula. Iniciativas como crédito imobiliário expandido para a classe média e o vale-gás podem dificultar a queda da inflação ao estimular o consumo e a atividade econômica, que ainda não apresentaram sinais claros de desaquecimento, segundo analistas.

O Déficit primário do governo central em setembro foi de R$ 17,3 bilhões, e o rombo nominal, que inclui juros da dívida, atingiu R$ 91,5 bilhões. A equipe econômica busca alternativas arrecadatórias após a derrota no Congresso em aprovar a Medida Provisória que compensaria a alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), estimada em R$ 20 bilhões para o próximo ano. A meta fiscal de 2026 é de um superávit de 0,25% do PIB.

Juros Altos e Mercado de Trabalho Aquecido

“O BC está sozinho e quem deveria apoiá-lo está atrapalhando”, comenta Luiz Fernando Figueiredo, presidente do conselho da JiveMauá Investments e ex-diretor do BC. Ele compara a situação a tentar “desacelerar o carro tendo outro acelerando”, o que força o BC a “brecar com mais intensidade”. Recentemente, o presidente Lula tem sido mais enfático sobre a necessidade de queda nos juros, após Críticas anteriores ao ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto.

Embora as expectativas de inflação e a inflação corrente mostrem sinais de desaceleração, impulsionadas pela queda do dólar e pela alta da Selic, as expectativas inflacionárias permanecem desancoradas, em torno de 4,7% este ano e 4,27% em 2026. O Mercado precifica uma redução da taxa básica apenas entre janeiro e março.

Para Loyola, a cautela do Banco Central é justificável. “Olhando estritamente os números, embora tenha havido uma melhora na inflação e nas expectativas, elas continuam acima da meta, mesmo no horizonte relevante”, disse o ex-presidente. Os esforços da autoridade monetária são parcialmente ofuscados por um mercado de trabalho ainda aquecido e preocupações com a fragilidade das contas públicas.

A taxa nacional de desemprego em agosto manteve-se em 5,6%, um patamar historicamente baixo. Segundo a Bloomberg Economics, isso estimula negociações salariais e tem ajudado a inflação a se manter resiliente, especialmente em serviços, que é uma preocupação chave para o Banco Central.

Política Monetária como Única Âncora

“O BC não estará apenas só, mas, mais que isso, enfrentando dinâmicas fiscais ou parafiscais que, em vez de ajudarem, atrapalham a efetividade da política monetária”, analisa Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs. “No atual estágio, a política monetária é a única âncora crível no sistema”. Ele espera um corte da Selic no primeiro trimestre de 2026, mas alerta para o risco de ser adiado caso não haja convergência da inflação para a meta de 3%.

O cenário internacional incerto, com tarifas mais elevadas e um ambiente protecionista, contribui para o menor crescimento global e comércio. Como parte dessa engrenagem, o Brasil também sofre os impactos, justificando a posição mais conservadora do BC.

Fonte: Valor Econômico

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