Crise Financeira? “Baratas” no Setor de Crédito Privado Acendem Alertas

Crédito privado nos EUA emite sinais de alerta com falências de empresas como Tricolor e First Brands. Risco de crise financeira generalizada aumenta.
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O mercado financeiro dos Estados Unidos tem dado sinais preocupantes. Recentemente, a Tricolor, uma gigante do setor de revenda de carros usados, declarou falência de forma inesperada. Investigações federais suspeitam de fraude, com a empresa acusada de prometer a mesma garantia de pagamento a múltiplos credores.

Pouco depois, a First Brands, conhecida fabricante de peças automotivas, revelou que cerca de US$ 2 bilhões em empréstimos não constavam em seu balanço financeiro. O advogado da empresa admitiu que nenhum valor seria rastreável.

A situação se agravou com a revelação de que grandes bancos como Fifth Third, JPMorgan Chase e Barclays sofreram perdas substanciais devido a empréstimos concedidos à Tricolor. Embora essas instituições financeiras possuam capacidade para absorver tais golpes, o episódio expôs um risco crescente e silencioso: a possibilidade de uma cascata de falências que poderia desencadear uma nova crise financeira generalizada.

O Crescimento do Crédito Privado e seus Riscos

Tanto a Tricolor quanto a First Brands haviam tomado empréstimos de instituições financeiras não bancárias, coletivamente conhecidas como “crédito privado”. Este setor, notadamente opaco, levanta sérias dúvidas sobre a extensão de seu impacto. A grande questão é: quão afetadas essas firmas estão? Quantos de seus tomadores de Empréstimo estão excessivamente alavancados? E o que acontecerá se eles também começarem a ruir? Atualmente, não há respostas claras.

O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, expressou a preocupação generalizada ao afirmar: “Quando você vê uma barata, provavelmente há mais por aí.” Essa declaração serve como um lembrete alarmante de como instituições financeiras, independentemente de seu tamanho ou natureza, tornaram-se interconectadas. Uma teia complexa de dívidas e exposições cruzadas amplifica os danos quando algo dá errado.

A crise financeira de 2008, desencadeada pela concessão excessiva de hipotecas a mutuários de alto risco, serve como um precedente sombrio. O Colapso simultâneo desses empréstimos arrastou grandes bancos e a economia global para uma recessão severa.

Após 2008, os bancos tradicionais tornaram-se mais regulamentados, reduzindo sua exposição a riscos excessivos. No entanto, esse vácuo foi preenchido pelo setor de crédito privado. Empresas como Apollo, KKR e Blackstone, que gerenciam vastos volumes de capital, intensificaram a concessão de empréstimos diretos, expandindo o setor para aproximadamente US$ 2 trilhões em ativos, tornando-se uma fonte crucial de financiamento.

Gráfico ilustrando o risco financeiro em mercados de crédito privado.ampunk
As consequências de empréstimos arriscados no mercado de crédito privado levantam preocupações sobre uma nova crise financeira.

Engenharia Financeira e Falta de Transparência

As firmas de crédito privado argumentam oferecer condições mais vantajosas do que os bancos, pois não dependem de depósitos. Contudo, sua isenção de muitas regulamentações bancárias pós-2008 lhes confere maior liberdade para conceder empréstimos arriscados. O capital que alimenta essas operações frequentemente provém de seguradoras, fundos de pensão e planos de Aposentadoria, o que significa que o dinheiro de pessoas comuns pode estar financiando empreendimentos de alto risco sem seu conhecimento.

Um paralelo alarmante é o uso extensivo da “engenharia financeira” por esses “bancos-sombra” (shadow banks). Eles agrupam diversas dívidas – de empréstimos corporativos a financiamentos de carros e cirurgias plásticas – e as fatiam em novos instrumentos de investimento. A avaliação de risco dessas fatias torna-se imprecisa, especialmente quando não se sabe como elas se sobrepõem ou qual o volume total da dívida subjacente.

A complexidade é agravada pelo fato de que as mesmas instituições financeiras podem atuar em múltiplos papéis. A Jefferies, por exemplo, atuou como banco de investimento assessorando a First Brands em captações e, simultaneamente, investiu nas oportunidades criadas por ela, tornando-se uma grande financiadora de curto prazo lastreada nas faturas da empresa.

Sinais de Alerta e Respostas do Mercado

As falências da First Brands e da Tricolor, embora não sejam as maiores empresas dos EUA, levantam a possibilidade de um cenário mais grave: concessão excessiva de empréstimos ruins, aumento de calotes e impacto na economia real à medida que as perdas se acumulam em Wall Street.

Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra, comparou a situação ao “canário na mina de carvão” da crise de 2008, alertando que os alarmes estão soando. Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, expressou preocupação com a migração massiva de crédito para o setor não bancário, que ela descreve como um “Velho Oeste”.

Líderes do crédito privado, como John Cortese da Apollo e Jon Gray da Blackstone, rejeitam a culpa, minimizando a ligação entre essas falências e o setor de bancos-sombra, e apontando que bancos tradicionais também estiveram envolvidos.

A interconexão entre os mercados de crédito público e privado é inegável. A expansão do volume de empréstimos a tomadores de alto risco e a participação crescente dos bancos nas operações de crédito privado aprofundam as interdependências. Após um ciclo de excessos, o surgimento de casos de negligência e fraude é inevitável. Os reguladores, ao tentarem evitar um novo colapso, podem ter apenas redirecionado o foco do impacto.

Fonte: Folha de S.Paulo

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