Um possível acordo comercial entre o Brasil e os Estados Unidos sobre tarifas de importação pode trazer benefícios significativos para clientes locais da Gerdau, que exportam produtos para o Mercado norte-americano. A afirmação é de Gustavo Werneck, diretor-presidente da siderúrgica.
Durante teleconferência com jornalistas, Werneck explicou que, embora o benefício não seja direto para a empresa, que já possui operações nos EUA, o acordo pode impulsionar a compra de aço por clientes que vendem máquinas e equipamentos no exterior. “Se o mercado se tornar um pouco mais adequado para que esses clientes exportem, isso possibilitaria que a Gerdau vendesse mais aço para eles aqui no Brasil“, destacou.
Protecionismo de Trump e impacto nos EUA
Werneck atribuiu o resultado mais forte da Gerdau nos Estados Unidos no terceiro trimestre deste ano à política protecionista adotada pelo ex-presidente Donald Trump. Medidas robustas para reduzir a entrada desleal de aço importado têm impactado positivamente os negócios da empresa no país.
A operação norte-americana da Gerdau representou 65% do Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Ebitda) da companhia no período, um aumento em relação aos 61% registrados no segundo trimestre. “Está totalmente relacionado a isso, e não é só de agora, desde a primeira administração Trump”, afirmou Werneck.
Ele ressaltou que a demanda por aço nos Estados Unidos permanece “muito forte” e deve se manter nos próximos anos, impulsionada, por exemplo, pela construção de data centers para sustentar a transformação digital. “A quantidade de data centers que serão construídos nos Estados Unidos corresponde a 800 campos de Futebol“, projetou.
Aço importado: um desafio para a indústria nacional
No mercado brasileiro, Werneck apontou que o nível de importação de aço está em aproximadamente 25%, um patamar considerado insustentável para a indústria nacional. Ele defendeu a adoção de medidas governamentais mais restritivas à entrada desses produtos no mercado interno, argumentando que as medidas atuais não têm sido eficazes.
“O principal concorrente do aço nacional é o importado, principalmente da China. As medidas existentes não têm sido eficazes e está entrando um grande volume”, alertou. O executivo mencionou que as conversas com o Governo aceleraram e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstra sensibilidade em relação à situação da indústria siderúrgica nacional.
Werneck expressou otimismo quanto à adoção de medidas nos próximos meses, indicando que o governo compreende a necessidade de apoiar o setor. “O governo entendeu que é impossível a indústria de aço sobreviver se continuar desse jeito, eles entenderam que não tem fôlego mais para setor trabalhar no vermelho”, disse.
Minério sustentável em Minas Gerais
A Gerdau está avançando na produção de minério sustentável em Miguel Burnier, Minas Gerais. O projeto tem 90% de avanço físico, com previsão de início da operação integrada para o começo de 2026. Equipamentos do complexo já iniciaram comissionamento e testes a quente.
Localizado próximo a Ouro Preto, o projeto utilizará um mineroduto até a usina de Ouro Branco, o que deve retirar cerca de 400 caminhões por dia das estradas. “Esta solução deve retirar 400 caminhões por dia da estrada, o que na visão do executivo é um exemplo da preocupação da empresa com a sustentabilidade, reduzindo emissões de CO₂ e dificuldades para os usuários das rodovias”, afirmou Werneck.
A capacidade produtiva do empreendimento, que visa primordialmente atender à demanda da usina de Ouro Branco, supera o necessário, abrindo espaço para comercialização a terceiros. “A empresa terá um pouco mais de minério para poder vender e comercializar. Este minério é de ‘altíssima qualidade’, enriquecido a 65% de ferro.” A estratégia de venda no mercado, no entanto, é limitada, e a empresa não planeja competir com grandes mineradoras como a Vale.
Fonte: Estadão