Mercados financeiros antecipam um novo aperto monetário enquanto o conflito no Oriente Próximo ameaça elevar o preço do petróleo. A reação automática sugere que, com o aumento da inflação, os bancos centrais elevariam as taxas de juros. Contudo, a questão central é se essa medida é adequada para a doença em questão.
A curva de juros tem incorporado a possibilidade de novas altas por parte de grandes bancos centrais. A lógica é que, se a energia pressionar a inflação, o Banco Central Europeu e o Federal Reserve precisariam demonstrar compromisso com a estabilidade de preços. No entanto, é crucial analisar a natureza do problema antes de definir o tratamento.
Argumentos para Aumento de Juros
A credibilidade é um argumento forte. Bancos centrais construíram reputação anti-inflacionária e seu principal ativo é a confiança de empresas, trabalhadores e investidores em suas ações para controlar preços. A erosão dessa credibilidade pode desancorar expectativas de inflação, tornando o problema mais complexo.
O efeito de segunda rodada também é relevante. Um choque externo, como o aumento do petróleo por razões geopolíticas, pode levar a demandas salariais e repasses de custos para preços, tornando a inflação estrutural. Aumentar juros seria uma tentativa de interromper esse ciclo.
Para a Europa, um argumento adicional é o câmbio. Juros mais altos tendem a fortalecer a moeda, o que barateia importações de energia em dólar, atuando como um amortecedor parcial.
Diagnóstico Inadequado para a Política Monetária
O problema atual não se alinha totalmente com a teoria monetária clássica. O petróleo não sobe por superaquecimento econômico, crédito barato ou gastos excessivos. A alta se deve ao risco de interrupções no fornecimento energético, um choque de oferta, não de demanda.
A política monetária atua sobre a demanda, encarecendo crédito, freando investimentos e consumo, e reduzindo a atividade econômica. Isso pode diminuir a inflação ao destruir demanda, mas não aumenta a oferta de petróleo. A única forma de baixar o preço do crudo via juros altos seria esfriar tanto a economia que a demanda por energia caísse, empobrecendo empresas e famílias.
Risco de Crescimento e Equidade
O risco de crescimento parece mais preocupante que um repunte temporário da inflação. A Europa tem um crescimento frágil e dependente do exterior. Os EUA mostram sinais de fadiga no consumidor após um longo período de juros elevados. Novas altas poderiam levar essas economias à recessão.
A inflação energética afeta mais as rendas baixas, mas o desemprego decorrente de política monetária restritiva também. A escolha é entre dois males, e é preciso estar ciente disso.
Comunicação e Consistência
A chave é reagir corretamente, não apenas rapidamente. Bancos centrais não podem substituir a diplomacia ou resolver conflitos geopolíticos. Podem, contudo, evitar que um choque temporário se torne inflação estrutural. A comunicação é tão importante quanto a ação.
Um banco central crível age se as expectativas de inflação se desancorarem, mas não reage automaticamente a cada dado ou manchete. A diferença entre ser crível e reativo reside na consistência da análise.
Perspectivas para Investidores
A volatilidade em renda fixa deve continuar enquanto o conflito persistir e o preço do petróleo for imprevisível. O mercado continuará precificando subidas e quedas de juros rapidamente. Posições longas em duration permanecem vulneráveis, enquanto ativos ligados à inflação e tramos curtos da curva oferecem melhor proteção.
Atuar tarde demais é custoso, mas usar a ferramenta errada pode ser ainda mais. O problema atual é um choque de oferta geopolítico, não um excesso de demanda. A política monetária não pode fabricar petróleo nem garantir estabilidade no Oriente Próximo. Pode esfriar a economia, mas não uma guerra.
Antes de aumentar juros para combater inflação vinda do petróleo, é preciso questionar: estamos curando a febre ou colocando o paciente em risco?
Fonte: Cincodias