O mês de março registrou uma reprecificação significativa na renda fixa brasileira. A pressão de um cenário externo adverso e incertezas fiscais domésticas levaram os bancos a aumentar os prêmios oferecidos nos Certificados de Depósito Bancário (CDBs). Essa elevação afetou todas as modalidades de títulos, com os indexados à inflação alcançando taxas médias superiores a IPCA + 7,8% ao ano.
Conforme levantamento da Quantum Finance, os CDBs pós-fixados com vencimento em 36 meses pagaram, em média, 100,54% do CDI em março, um aumento em relação aos 100,22% de fevereiro. Para papéis de 24 meses, a média subiu de 100,17% para 100,56% do CDI.
A elevação nas taxas dos CDBs reflete uma combinação de fatores globais e locais que impulsionaram a curva de juros. Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos, destaca que o conflito entre Irã e Estados Unidos gerou aversão ao risco, levando o mercado a antecipar juros mais altos por um período prolongado.
Risco Fiscal Agrava Cenário
A percepção de risco fiscal no Brasil também contribuiu para o cenário. Bruno Corano, CEO da Corano Capital, aponta que as dúvidas sobre o controle da dívida pública brasileira aumentaram, forçando os bancos a competir com o Tesouro e, consequentemente, a pagar prêmios maiores.
Oportunidade Histórica com Cautela
Com taxas atreladas à inflação atingindo patamares médios de IPCA + 7,81% para prazos mais longos, especialistas veem uma oportunidade histórica, mas ressaltam a necessidade de cautela. Harrison Gonçalves, analista CFA, considera o nível atual de juro real atrativo, mas transitório, pois uma taxa de equilíbrio em torno de 4,5% a 5% é mais sustentável para o país.
Gonçalves recomenda que este tipo de investimento seja feito por investidores com horizonte compatível com o prazo de vencimento do título, evitando exposição à volatilidade no curto prazo. Corano concorda que prêmios acima de IPCA + 6% são muito atrativos, mas alerta para o risco do emissor, com garantia limitada a R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e para o prazo, pois títulos muito longos podem sofrer com marcação a mercado em caso de resgate antecipado.
Títulos Prefixados e Perspectivas para Abril
Os títulos prefixados também foram reprecificados, com papéis para 24 meses saltando de uma taxa média de 12,32% em fevereiro para 13,22% em março. Corano desaconselha o investimento em prefixados no Brasil, considerando os riscos que frequentemente superam os ganhos, especialmente em um cenário de iminente crise.
Gonçalves complementa que os prefixados são os mais afetados em cenários de deterioração fiscal ou estresse inflacionário. A recomendação é utilizá-los com parcimônia, combinados com títulos IPCA+ e pós-fixados.
A expectativa para abril é de uma acomodação na curva de juros. Corano projeta que o mercado já realizou grande parte do ajuste e não prevê uma nova abertura significativa da curva, exceto por possível estresse caso o conflito no Oriente Médio persista e o petróleo dispare.
Gonçalves aponta que a redução consistente das taxas dependerá de fatores externos e, principalmente, de sinais claros na agenda fiscal doméstica. Propostas econômicas mais consistentes e anúncios sobre a equipe econômica podem diminuir a percepção de risco. Na ausência desses fatores, os prêmios exigidos pelos investidores devem permanecer elevados, embora possivelmente abaixo dos picos recentes.
Fonte: Infomoney