O empresário Joesley Batista, controlador da J&F, decidiu investir na indústria bélica ao assinar um contrato para participar do financiamento da Avibrás. A empresa, que está em recuperação judicial desde 2022, arrecadou R$ 300 milhões com investidores privados, coordenados pelo Fundo Brasil Crédito. Este fundo também elaborou o plano alternativo de reestruturação da Avibrás, que já foi aprovado pela Justiça e pelos credores.
A Avibrás deve anunciar oficialmente sua reestruturação nas próximas semanas. O Fundo Brasil Crédito, com cotistas Raul Ortuzar e Thiago Osório, é especialista em reestruturar empresas e detém ações da Avibrás, que poderão ser negociadas após o processo. O acerto com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional está em fase final.
O aporte financeiro de Joesley Batista e outros investidores é crucial para o Ministério da Defesa. O ministro José Múcio Monteiro Filho trabalhou para garantir a sobrevivência da Avibrás, a maior indústria bélica do país, especialmente em um cenário geopolítico que elevou a importância de seus produtos.
O plano de reestruturação
O plano financeiro da Avibrás previa a obtenção de R$ 300 milhões em recursos públicos, via Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). No entanto, a direção do Fundo Brasil Crédito optou por antecipar a retomada da produção em maio, mesmo sem os recursos públicos confirmados.
Joesley Batista se reuniu duas vezes com a diretoria do Fundo. Entre os financiadores, há pelo menos um banco. A Avibrás, considerada estratégica, contava com apoio no Congresso Nacional para que o governo federal a encamipasse.
O investimento privado também soluciona a preocupação das Forças Armadas em evitar a aquisição da Avibrás por empresas estrangeiras, como a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries, que demonstraram interesse na compra.
Os mísseis para o Exército
Os principais contratos da Avibrás são com o Exército e a Força Aérea. A empresa é responsável pelo sistema de foguetes balísticos Astros, utilizado por diversos países, como Indonésia e Malásia. O sistema continua a atrair atenção internacional.
A Avibrás dará continuidade à parceria com o Escritório de Projetos do Exército (EPEx) para finalizar o desenvolvimento do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300), com 90% do projeto já concluído. Falta apenas a campanha de tiro.
O Exército também desenvolve o Míssil Tático Balístico S+100, que utilizará o conhecimento do projeto S-80 e terá interoperabilidade com outros sistemas da Avibrás, representando um projeto com grande potencial de vendas no mercado externo.
As negociações são conduzidas pelo Comando de Logística (Colog) e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército. Os recursos serão utilizados para investimentos em Defesa, conforme a Lei Complementar 221, que permite a exclusão de despesas com projetos estratégicos de defesa nacional do arcabouço fiscal até 2031. Essas encomendas devem sustentar a retomada da empresa.
Atualmente, a Avibrás emprega 80 profissionais e planeja expandir para 200 em maio, com a retomada da produção. Em junho, a expectativa é de 500 funcionários, podendo chegar a mais de mil com novas encomendas e parcerias futuras.
A empresa manteve sua linha de produção, propriedades intelectuais e ativos de tecnologia da informação, além de reativar os setores de compras e RH.
Para a Força Aérea, a Avibrás oferecerá uma versão do MTC-300 disparada por aviões. Há também a possibilidade de equipar a Marinha, que atualmente utiliza o sistema Astros para disparar o míssil Mansup, com alcance de 70 km, que poderá chegar a 200 km em versão estendida.
A recuperação judicial
A Avibrás solicitou recuperação judicial em março de 2022, com dívidas de R$ 394 milhões, alegando perda de competitividade em mercados do Oriente Médio e Sudeste Asiático devido à ascensão de empresas com forte financiamento governamental.
O plano de recuperação proposto pelo fundo foi aprovado pela Justiça paulista. Um novo CNPJ foi criado para a Avibrás, capitalizado com R$ 2,5 bilhões da empresa em recuperação judicial até dezembro de 2025.
Uma greve de 1.280 dias terminou em acordo judicial em 26 de março, com a dívida trabalhista de R$ 230 milhões com 1,4 mil ex-empregados sendo saldada em até quatro anos.
Nesse contexto, Joesley Batista demonstrou interesse no financiamento, assinando contrato com o Fundo Brasil Crédito, sujeito ao cumprimento de condições, como a negociação das dívidas trabalhistas. O antigo proprietário, João Brasil, não fará parte da nova Avibrás.
Transparência e disputa
Nos últimos anos, a Avibrás recebeu R$ 394 milhões em recursos do governo federal, incluindo R$ 229 milhões em renúncias fiscais. A negociação ocorre em meio a uma disputa judicial da J&F para reduzir a multa de R$ 10,3 bilhões de seu acordo de leniência com o Ministério Público Federal.
Em 2025, a Justiça Federal em Brasília determinou o recálculo do valor a pedido do grupo. O acordo original foi feito quando Joesley, Wesley e executivos da J&F confessaram crimes contra fundos de pensão e a Caixa Econômica Federal, envolvendo mais de 1,8 mil políticos.
Fonte: Estadão