O privilégio financeiro dos Estados Unidos de ser o centro do sistema global e emitir a moeda de reserva de valor permitiu ao país financiar sua dívida a custos inferiores aos de seus fundamentos. No último ano, contudo, esse privilégio desapareceu, segundo o economista Ricardo Reis, professor da London School of Economics.
O que você precisa saber
- O dólar se depreciou, contrariando a expectativa de apreciação esperada com o aumento de tarifas comerciais.
- O “prêmio de conveniência” dos títulos do Tesouro americano praticamente desapareceu, com o governo dos EUA se financiando a custos similares aos de empresas de alta qualidade.
- A Alemanha, após ajuste cambial, apresenta um custo de financiamento menor que o dos EUA.
Perda de Confiança nos Treasuries
Reis observa que a imposição de tarifas pelos EUA a parceiros comerciais deveria levar a uma apreciação do dólar. No entanto, a repressão financeira adotada pela administração atual teve o efeito oposto, afastando investidores estrangeiros e elevando os prêmios de risco exigidos pelos ativos americanos. A diferença no comportamento do dólar frente ao yuan e ao euro reforça essa leitura.
Após o “Liberation Day”, em abril de 2025, em momentos de maior apetite por risco, os títulos do Tesouro americano passaram a se comportar como um investimento relativamente pior. Houve uma perda significativa de confiança nos Treasuries, refletida nos preços.
Novo Privilégio: Tecnologia e IA
Apesar da perda de vantagem do governo americano, a economia dos EUA, especialmente sua capacidade de liderar novas tecnologias, segue sem paralelo. Investidores redirecionaram capital para o mercado acionário americano, focando em Inteligência Artificial. Esse fluxo ajudou a sustentar o dólar e a economia, mesmo com a perda do “privilégio exorbitante” associado aos títulos públicos.
O novo privilégio dos EUA passa a ser o acesso à Tecnologia e a oportunidades de investimento únicas, especialmente no mercado acionário, que é essencial para a exposição à inteligência artificial.
Sustentabilidade do Equilíbrio Cambial
O aumento da demanda por proteção cambial, que dobrou nos últimos 12 meses, levanta a questão de quem fornece esse seguro. Intermediários financeiros assumiram posições mais expostas, vendendo proteção cambial sem hedge completo, apostando na queda do dólar. Esse comportamento ajudou a conter o custo do seguro e evitou uma depreciação ainda maior da moeda.
A sustentabilidade desse equilíbrio depende das linhas de swap entre bancos centrais, que garantem liquidez em dólares globalmente. Qualquer ruptura nesse arranjo teria impacto imediato sobre o acesso global ao dólar.
A dominância do dólar, embora ainda forte, não é incontestável. O yuan avança como meio de pagamento e unidade de conta, mas ainda enfrenta desafios como reserva de valor devido a restrições de capital e limitação de ativos seguros.
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Fonte: Globo