A taxa básica de juros se consolidou como o principal fator que determina o fluxo no mercado de capitais brasileiro. Para Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management e ex-secretário especial do Ministério da Fazenda, essa dinâmica é central para entender o cenário atual.






O ambiente de juros elevados mantém o investidor focado em renda fixa, o que explica a demora na retomada consistente do mercado de ações. Apesar das incertezas, o mercado evoluiu para um nível de desenvolvimento e sustentabilidade que permite aos agentes navegar nesse cenário, segundo Funchal.
Com a janela de IPOs praticamente fechada nos últimos anos, o crédito privado assumiu um papel central no financiamento de empresas. Este mercado ganhou profundidade e liquidez, com uma gama maior de instrumentos, permitindo que operações continuassem mesmo em um ambiente desafiador.
O mercado deixou de ser binário, operando de forma mais contínua com diferentes alternativas de captação. O mercado não para, ele se adapta, afirmou Funchal.
O volume de emissões no crédito privado cresceu significativamente, acompanhado por um aumento no número de operações e maior participação de empresas de diferentes portes. Essa captação, antes concentrada em grandes companhias, agora alcança uma base mais ampla.
Gastos públicos limitam potencial do mercado
A elevada necessidade de financiamento do setor público continua pressionando os juros e reduzindo a disponibilidade de recursos para o setor produtivo. Parte da poupança doméstica é direcionada para financiar a dívida pública, o que encarece o custo de capital para as empresas.
Com juros mais altos, projetos deixam de ser viáveis, e o mercado de capitais perde capacidade de financiar o crescimento. Este é um dos principais desafios estruturais do país.
Apesar disso, o mercado brasileiro evoluiu de forma significativa. Houve avanços em instrumentos, regulação e participação de investidores, o que aumentou a resiliência do sistema. O mercado construiu uma estrutura que consegue funcionar mesmo em ambientes adversos, disse Funchal.
O amadurecimento do mercado também explica o comportamento recente dos ativos brasileiros. Mesmo diante de um cenário global incerto, o Brasil atrai atenção de investidores estrangeiros, impulsionado por juros elevados e valuations mais baixos.
Enquanto o ambiente global é marcado por uma crise de confiança, o Brasil aparece como destino relativo de capital por oferecer retorno mais elevado.
O mercado de IPOs segue travado, mas não morto. Há um pipeline relevante de empresas prontas para acessar a bolsa, aguardando apenas as condições adequadas. O que falta não é oferta, é janela, afirmou Guilherme Maranhão, do Itaú BBA.
A retomada depende da trajetória de juros e da redução das incertezas. Enquanto isso não acontece, o fluxo se concentra na renda fixa. A expectativa é de uma reabertura gradual do mercado de equity, começando por operações como follow-ons e instrumentos híbridos, antes de uma retomada mais ampla dos IPOs.
O mercado de capitais brasileiro não está parado, mas sim condicionado. Quando o ciclo de juros permitir, a retomada tende a acontecer sobre uma base mais sólida do que no passado.
Fonte: Moneytimes