Em um mercado de peixe na capital líbia de Trípoli, vendedores apregoam seus produtos, como polvo, lula e camarão. No entanto, algumas bandejas exibem tubarões com as barrigas repletas de ovos, incluindo dezenas de espécimes de longnose spurdogs, conhecidos localmente como “kalb al-bahr”, capturados em plena época de reprodução.






Um pescador, que pediu anonimato por questões de segurança, relatou a ausência de monitoramento no mar e nos pontos de venda na Líbia. Devido ao baixo custo do “kalb al-bahr”, que o torna popular entre os consumidores locais, pescadores que buscam sobreviver à crise econômica do país ignoram as restrições de pesca durante os períodos reprodutivos.
A espécie possui um ciclo reprodutivo lento, com fêmeas gerando apenas de um a seis filhotes por gestação, tornando-a extremamente vulnerável à pressão pesqueira contínua.
Engajamento comunitário
A bióloga marinha Sara Al Mabruk, ao se deparar com imagens de pescadores retirando tubarões, incluindo espécies ameaçadas, das águas líbias, decidiu agir. Utilizando as redes sociais, ela contatou pescadores, solicitando o compartilhamento de fotos e informações sobre as espécies capturadas.
Sua iniciativa evoluiu para uma campanha de conscientização, e ela também utiliza rádios locais e encontros diretos com pescadores para explicar a situação dos tubarões e a necessidade de proteção urgente.
Al Mabruk expressou otimismo quanto à proteção de tubarões ameaçados em águas líbias, mas demonstra preocupação com o futuro dos longnose spurdogs, classificados na Lista Vermelha de espécies ameaçadas como ‘dados deficientes’.
A especialista alertou que, se a situação persistir, declínios adicionais em seus números são prováveis na próxima década. A classificação “dados deficientes” para o “kalb al-bahr” é preocupante, pois outras espécies nessa categoria foram posteriormente designadas como “ameaçadas” com a disponibilidade de dados mais precisos.
Proteção no papel
A Marine Biology in Libya Society, uma organização não governamental, documentou 30 espécies de tubarões em águas líbias, observando que várias são regularmente capturadas e vendidas em mercados. Embora a Líbia possua uma lei de pesca de 1989 que permite a regulamentação de temporadas e equipamentos, sua aplicação é falha e quase impossível de ser implementada em alto mar sem a conformidade da frota pesqueira.
A coordenação regional para monitoramento de águas compartilhadas, intercâmbio de dados e aplicação de medidas de conservação também é limitada.
Apesar de técnicas modernas de pesca nem sempre distinguirem espécies, facilitando a captura acidental de tubarões que podem ser devolvidos ao mar ou vendidos, há sinais de crescente conscientização. Pequenos pescadores locais, como Abdullah Al-Fitouri, co-fundador da Life Organization for Marine Conservation, acreditam na importância da proteção marinha e na preservação de espécies ameaçadas.
Apesar da instabilidade econômica e política na Líbia, a intervenção para salvaguardar o ecossistema marinho pode estabelecer as bases para sua sustentabilidade a longo prazo.
Fonte: Dw