O CEO do J.P. Morgan, Jamie Dimon, alertou que a guerra no Irã representa um risco de choques nos preços do petróleo e de commodities, o que pode manter a inflação elevada e levar os juros a níveis mais altos do que o atualmente esperado pelo mercado.
O alerta foi feito em sua carta anual aos acionistas, um dia após o presidente dos Estados Unidos elevar a pressão sobre o Irã.
Dimon também afirmou que o setor de crédito privado “provavelmente” não representa um risco sistêmico, apesar de movimentos recentes de investidores de reduzir exposição a fundos de “private credit”, diante de preocupações de que os avanços em inteligência artificial possam prejudicar alguns tomadores de crédito.
Riscos geopolíticos e econômicos
“Os desafios que todos nós enfrentamos são significativos”, acrescentou Dimon, ao mencionar riscos geopolíticos como a guerra na Ucrânia, as tensões mais amplas no Oriente Médio e as relações com a China.
“Agora, por conta da guerra no Irã, enfrentamos adicionalmente o potencial de choques significativos e persistentes nos preços do petróleo e de outras commodities, além de uma reconfiguração das cadeias globais de suprimento, o que pode levar a uma inflação mais persistente e, em última instância, a juros mais elevados do que o mercado atualmente projeta”, afirmou.
Na avaliação de Dimon, ainda é cedo para dizer se a guerra no Irã atingirá os objetivos dos EUA, acrescentando que a proliferação nuclear segue sendo o maior risco associado ao país.
Mercados reagem a preocupações com inflação
As preocupações com a inflação impulsionadas pela guerra levaram os mercados a praticamente descartar cortes de juros neste ano nos EUA. Na semana passada, o índice S&P 500 registrou seu pior trimestre desde 2022, pressionado pela guerra e pela consequente alta nos preços de energia.
Dimon afirmou que a economia americana segue resiliente, com consumidores ainda gerando renda e gastando, embora com sinais recentes de enfraquecimento, e empresas ainda saudáveis. Ele, no entanto, alertou que a economia vem sendo sustentada por elevados déficits fiscais e pelos estímulos adotados no passado, enquanto o aumento dos investimentos em infraestrutura segue sendo uma necessidade crescente.
Crédito privado sob escrutínio
Dimon afirmou que o mercado de “private credit”, estimado em US$ 1,8 trilhão, ainda é relativamente pequeno. No entanto, quando o ciclo de crédito enfraquecer, ele alertou que as perdas em operações alavancadas tendem a ser maiores do que o esperado, já que os padrões de crédito vêm se deteriorando gradualmente de forma generalizada.
Além disso, o “private credit” não costuma apresentar grande transparência nem avaliações rigorosas de preço dos ativos, o que aumenta o risco de vendas por parte dos investidores caso percebam deterioração do ambiente, alertou.
Na semana passada, a gestora Blue Owl informou a investidores que estava limitando resgates em dois fundos após um nível recorde de pedidos de retirada no primeiro trimestre, com preocupações relacionadas à inteligência artificial impulsionando a saída de recursos de seu fundo focado em tecnologia.
Dimon também utilizou a carta para criticar duramente as regras revisadas de capital propostas por reguladores bancários dos EUA no mês passado, classificando alguns pontos como ainda “sem sentido”. O J.P. Morgan esteve entre os bancos que atuaram fortemente para suavizar as propostas iniciais de 2023 das regras de Basileia III e dos encargos adicionais aplicados a bancos sistemicamente importantes (GSIB).
Ainda assim, Dimon afirmou que as propostas seguem “muito falhas”, acrescentando que o adicional de capital exigido do J.P. Morgan cairia apenas para 5,0%, nível que, segundo ele, penaliza o sucesso do banco e é “absurdo” e “antiamericano”.
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Fonte: Globo