O presidente Lula cometeu dois erros estratégicos em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). O primeiro ocorreu durante o período de maior estabilidade econômica e política, quando se aliou ao STF e a figuras como Alexandre de Moraes, especialmente durante o julgamento e condenação de Jair Bolsonaro e de militares. O segundo erro acontece agora, ao tentar se distanciar da instituição em um momento de instabilidade e questionamentos sobre a conduta de ministros.
Lula agiu corretamente ao assumir a liderança na defesa da democracia após os ataques de 8 de janeiro, reunindo chefes de Estado e governadores para condenar os atos. Sua posição como chefe de Estado foi fundamental para unir as instituições contra a barbárie.
O problema surgiu quando o Planalto e o PT buscaram associar o STF e o ministro Alexandre de Moraes a interesses políticos do governo. Essa associação, embora maliciosa, foi explorada por grupos bolsonaristas para reforçar a narrativa de um conluio político.
A imagem de Moraes, em particular, foi associada a Lula e à esquerda, o que prejudicou sua neutralidade percebida. Essa percepção de um juiz com “lado” foi prejudicial tanto para Moraes quanto para a imagem do próprio presidente.
Com o surgimento de revelações sobre a relação de ministros com o empresário Daniel Vorcaro, Lula se viu em uma posição delicada. Ele expressou publicamente irritação com o ministro Dias Toffoli e incômodo com Moraes, buscando se distanciar do escândalo.
O presidente, no entanto, enfrenta um dilema: não pode atacar Moraes diretamente nem defendê-lo abertamente. Sua estratégia atual é tentar se afastar da polêmica sem parecer que está combatendo um problema grave com medidas insuficientes.
Até o momento, não há evidências que liguem diretamente Lula a irregularidades envolvendo o empresário Daniel Vorcaro ou o Banco Master. Uma conversa no Planalto, aparentemente rotineira, foi classificada por Lula como um reflexo do governo Bolsonaro e do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
Essa manobra visa desviar o foco do escândalo para o lado oposto da polarização política, direcionando a atenção para figuras como Flávio Bolsonaro, em vez de Jair Bolsonaro. A intenção é que qualquer mancha no filho respingue no pai.
O escândalo, contudo, afeta diretamente o STF, mesmo que contamine a eleição. Após Toffoli e Moraes, outros ministros, como Nunes Marques, foram citados em situações que levantam questionamentos.
O que prejudica Lula não é uma ação direta dele ou de seu governo em benefício de empresas ou empresários, mas sim a associação com o STF e com o ministro Moraes. Essa ligação, além de atingir o Supremo, torna o ministro um fardo para a imagem do presidente.
Fonte: Estadão