Javier Gil, investigador do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) e especialista em financiarização da habitação, alerta para uma bolha no mercado de aluguéis na Espanha, sustentada por intervenções políticas.
Em seu livro “Geração Inquilina”, Gil analisa como a dificuldade crescente de acesso à propriedade transforma a sociedade e a economia, com a habitação se tornando um ativo de especulação em vez de um bem essencial.
O Paradigma Rentista
Gil descreve um novo paradigma econômico e político, o rentista, onde a prioridade é evitar a queda dos preços dos ativos, mesmo que isso prejudique o bem-estar da população. Ele aponta que a especulação, impulsionada pela liquidez dos bancos centrais e pelo excesso de dívida pública, tornou-se o motor da economia, redistribuindo riqueza em vez de produzi-la.
Crise de Bem-Estar e Desigualdade
A crise habitacional é diretamente ligada à crise de bem-estar, especialmente para os jovens. Sem acesso à propriedade e com salários insuficientes para cobrir os altos custos de moradia, a frustração cresce, abrindo espaço para o descontentamento social e o avanço da extrema-direita.
O modelo de sociedade de proprietários, que visava a pacificação social, entrou em colapso após 2008. Atualmente, a desigualdade é cada vez mais definida pelo patrimônio imobiliário, com a concentração de propriedades acelerando a ruptura social.
Intervenção Política e o Futuro
Gil critica a política pública espanhola, que, desde 2012, tem favorecido a especulação imobiliária através de reformas financeiras, criação da Sareb e flexibilização das leis de aluguel. A venda de milhares de imóveis a grandes fundos de investimento reativou o mercado e impulsionou a entrada de capital estrangeiro.
Ele afirma que a escassez de moradia não é o fator central, mas sim a demanda especulativa, que eleva os preços mesmo em áreas com declínio populacional. A bolha do aluguel, embora diferente da anterior, está desconectada da economia real e sustentada por políticas favoráveis aos especuladores, com um custo social elevado.
Fonte: Elpais