A desconfiança crescente no mecanismo de mercado global, base da globalização nas últimas quatro décadas, está provocando a ruptura do sistema econômico internacional. A confiança na disponibilidade de transações e financiamentos, antes garantida, tem sido abalada por eventos e decisões políticas.
Pontos de inflexão na confiança global
A crise financeira de 2007, iniciada com a bolha imobiliária nos EUA e a crise do euro, marcou o primeiro ponto de inflexão. A confiança na disponibilidade de financiamento desapareceu para alguns setores e países, forçando os bancos centrais a intervir. Desde então, o financiamento interbancário sem garantias diminuiu drasticamente, e os bancos centrais assumiram um papel de intermediação permanente. O terremoto de Fukushima, em 2011, evidenciou a fragilidade das cadeias de suprimentos longas e dependentes de fornecedores distantes, levando a um encurtamento e aumento de redundâncias.
Instrumentalização de interdependências econômicas
Decisões de política econômica também têm gerado desconfiança. O racionamento de terras raras pela China em 2010 para o Japão foi um alerta sobre a instrumentalização das interdependências econômicas. O uso crescente de sanções financeiras pelos EUA impulsionou a diversificação de canais de pagamento por países como Rússia, China e Brasil. A segmentação da internet entre Ocidente e China visa evitar a instrumentalização estratégica. A guerra comercial e o uso de tarifas esvaziaram o sistema de regras da Organização Mundial do Comércio. Controles de exportação de terras raras e microchips por China e EUA, respectivamente, impactaram processos manufatureiros globais. A fragilidade do comércio de matérias-primas e energia foi reforçada pelo controle iraniano do estreito de Ormuz.
Deterioração do papel do dólar e novas alianças
O efeito acumulado desses eventos pode minar o papel do dólar como moeda de reserva. A demanda por ouro como ativo de reserva aumentou, assim como o uso do renminbi como instrumento de pagamento na zona de influência chinesa. A exigência iraniana de pagamento em yuan por petróleo no estreito de Ormuz pode ser um ponto de inflexão. Diante da deterioração da confiança, o cenário aponta para um retorno gradual à autarquia, com alto custo para o crescimento, ou a criação de um sistema de coalizões para reconstruir a confiança. Países e regiões que produzam materiais críticos, ofereçam garantias e tenham capacidade de financiamento em setores estratégicos sairão beneficiados.
Europa e a necessidade de autonomia estratégica
A Europa pode se beneficiar desse redesenho se oferecer um mercado único transparente e regulatório eficiente, além de um ativo seguro como os eurobonos. A imposição do euro como moeda de transação em acordos comerciais, seguindo o modelo dos petrodólares, é crucial para que o euro se torne uma moeda de reserva global. A Europa precisa agir agora para conquistar autonomia estratégica, evitando a burocracia e a fragmentação interna, que poderiam consolidar divergências e a insignificância de cada país.
Fonte: Elpais