A cidade de Narva, localizada na fronteira oriental da Estônia com a Rússia, tem sido alvo de debates sobre segurança europeia e identidade. Rumores sobre a secessão da cidade e sua possível adesão à Rússia circulam em redes sociais e plataformas como o Telegram, com a criação de uma suposta “República Popular de Narva”, incluindo bandeira e brasão, que remetem a propaganda pró-Rússia sobre a Crimeia.






Serviços de inteligência estonianos classificaram os boatos como provocativos, e a maioria dos moradores locais os considera sem fundamento. Em Narva, a vida segue normalmente, com uma mistura de estilos arquitetônicos da era soviética e logotipos europeus contemporâneos. A cidade, com cerca de 52.000 habitantes, tem fortes laços com a Rússia: apenas 2% dos residentes falam estoniano em casa, a maioria fala russo e um terço possui passaporte russo.
Conexões com a União Europeia
Apesar da proximidade com a Rússia, Narva também possui fortes laços com a Europa, sendo descrita como “a cidade onde a Europa começa”. Em setembro, a maior fábrica de ímãs de terras raras da Europa foi inaugurada em Narva, financiada pela União Europeia. A fábrica produzirá ímãs para veículos elétricos, turbinas eólicas e microeletrônicos, um passo importante para a autonomia estratégica da UE, que até então dependia de importações da China.
A prefeita de Narva, Katri Raik, expressou preocupação com a imagem negativa que esses boatos causam à cidade. “As pessoas de Narva se preocupam com a imagem de sua cidade”, disse. “Esses relatórios nos dão publicidade negativa e ninguém quer isso. Nosso povo ama sua cidade e simplesmente não tem tempo para inventar esse tipo de história.” Muitos moradores locais desmentem veementemente a ideia de uma “República Popular de Narva”, classificando-a como “completo absurdo” e “inimaginável”.
Frustração e Insegurança sobre o Futuro
O jornalista local Roman Vikulov afirma que não há separatistas em Narva e que o apoio à secessão é mínimo. Ele reconhece que pode haver pessoas em Narva que não veem muitas perspectivas na Estônia, resultando em “muita decepção e depressão profunda”. No entanto, essa insatisfação não se traduz em agressividade, mas sim em um desejo de deixar a cidade devido à “frustração e insegurança sobre o futuro de Narva”, ligada à situação da Rússia.
A comparação com a vida na Rússia é frequentemente feita pelos moradores. A construção de um calçadão ao longo do rio, com financiamento da UE, exemplifica a diferença. O lado estoniano apresenta uma via agradável, enquanto o lado russo é mais curto e de qualidade inferior, apesar de ter recebido mais verba. A corrupção é apontada como causa para as falhas na construção russa. Jornalistas locais ressaltam que as pensões na região russa de Leningrado são cerca de três vezes menores do que na Estônia, o que desestimula o desejo de se juntar à Rússia.
Posição da Rússia sobre Narva
Apesar da realidade local, Narva não foi esquecida por imperialistas e nacionalistas russos. Em 2022, o presidente Vladimir Putin mencionou Narva como um território russo “recuperado” por Pedro, o Grande. Além disso, desde a invasão russa da Ucrânia, a Rússia realiza anualmente um festival em 9 de maio, comemorando o fim da Segunda Guerra Mundial, em seu lado do rio Narva. O evento exibe símbolos soviéticos proibidos na Estônia e transmite desfiles da Praça Vermelha, com o palco e a tela posicionados de forma a serem visíveis para Narva.
Fonte: Dw