Em 2 de abril de 2025, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proclamou uma “declaração de independência econômica” por meio de tarifas abrangentes, acusando aliados de terem “saqueado” o país. A medida gerou ameaças de retaliação de parceiros comerciais, como Japão, Canadá e França, e prenunciava uma guerra comercial total.
Os danos causados pelas tarifas de Trump foram significativos. A taxa tarifária efetiva dos Estados Unidos ultrapassou brevemente os 20%, atingindo seu nível mais alto desde a década de 1940. A implementação errática dessas tarifas impactou o investimento, com a construção de novas fábricas em economias ricas caindo mais de um quarto em 2025. A parcela do comércio realizado em termos não discriminatórios caiu de 80% para 72% no último ano, segundo estimativas da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O comércio se fortalece apesar das barreiras
Contudo, a ruptura esperada no comércio global não se concretizou. Em 2025, o comércio cresceu quase 5%, superando o ritmo da economia mundial. A barreira tarifária americana mostrou-se permeável, com isenções devido a mudanças de posição de Trump. Aproximadamente metade das importações de mercadorias ainda entra nos Estados Unidos sem impostos, de acordo com a Bloomberg Economics. O déficit de bens, uma das principais preocupações do presidente, aumentou para mais de US$ 1,2 trilhão, ou 4% do PIB, no ano passado.
Redirecionamento de importações e novos mercados
As tarifas alteraram a origem das importações americanas, em vez de reduzir o volume. Tarifas punitivas contra a China sufocaram o comércio direto entre as duas superpotências, com importações da China caindo mais de 40% entre maio e dezembro de 2025. Simultaneamente, as importações de Tailândia e Vietnã aumentaram mais de 40%, com produtores do Sudeste Asiático assumindo a participação da China em categorias como laptops. A Índia também aumentou suas exportações para os Estados Unidos, impulsionada por remessas de smartphones isentos de tarifas.
Novos acordos e a ascensão de potências médias
A escalada tarifária não se alastrou como em crises anteriores. Em vez de erguerem suas próprias barreiras, os parceiros comerciais se abriram, buscando novos mercados e aprofundando laços mútuos. A União Europeia finalizou um acordo com o Mercosul e concluiu acordos com Austrália, Índia e Indonésia. A Suíça, por meio da EFTA, firmou seu primeiro acordo com a América do Sul. A Grã-Bretanha assinou um acordo comercial com a Índia, e a própria Índia fechou acordos com Omã e Nova Zelândia. Estima-se que mais de 15 acordos envolvendo países como Canadá, UE e Japão foram firmados no último ano, abrangendo mais de US$ 400 bilhões em comércio.
Enquanto Trump desmantela o antigo sistema multilateral, outros criam novas regras. Acordos de comércio digital estão proliferando, com 66 países estabelecendo padrões comuns para fluxos de dados. Blocos como a UE e membros do Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica aprofundam a cooperação em comércio e investimento.
Apesar dos riscos persistirem, como investigações sobre parceiros comerciais e problemas no sistema multilateral, o valor de um sistema aberto permanece claro. Uma nova ordem comercial está emergindo, construída por coalizões de países dispostos, mas ainda fundamentada na abertura e em regras. Os Estados Unidos foram os arquitetos do antigo sistema, mas outros estão construindo o atual.
Fonte: Estadão