A Noruega, impulsionada por sua vasta riqueza petrolífera, construiu uma economia robusta com um PIB per capita de US$ 90 mil e um fundo soberano de US$ 2,2 trilhões. Essa prosperidade sustenta um dos estados de bem-estar social mais generosos do mundo, com o fundo soberano representando US$ 400 mil para cada habitante.
No entanto, o modelo econômico norueguês enfrenta crescentes críticas. O livro “O País que Ficou Rico Demais”, de Martin Bech Holte, aponta para um sentimento emergente de insatisfação com a dependência da riqueza nacional. O partido Progresso, de centro-direita, ganhou espaço ao defender a necessidade de frear os gastos excessivos e a dependência do petróleo.
Gastos públicos e adiamento de decisões
A abundância de recursos financeiros, provenientes dos lucros do petróleo e retornos de investimentos, tem levado a um aumento nos gastos públicos. O fundo petrolífero, que investe exclusivamente no exterior, canaliza recursos para o governo, cobrindo a diferença entre despesas e impostos. Em 2025, o fundo representou um quinto dos gastos governamentais.
Essa situação permite que políticos adiem decisões difíceis e que eleitores demandem mais gastos, sem a pressão de impostos mais altos. A saúde, por exemplo, é a maior despesa do governo, com serviços médicos custando 30% a mais na Noruega do que na União Europeia, sem que haja reformas significativas para otimizar os custos.
Endividamento familiar e estagnação da produtividade
A riqueza nacional também se reflete no alto endividamento das famílias, que chega a 250% da renda anual, o mais elevado da Europa. A percepção de que a riqueza nacional pode socorrer em tempos difíceis diminui a urgência da poupança.
A necessidade de gerar renda também é afetada. A taxa de desemprego entre jovens é alta, e a evasão escolar no ensino médio e superior é uma das mais elevadas da Europa. O sistema de ensino superior gratuito e com empréstimos generosos incentiva o prolongamento dos estudos, resultando em uma população altamente qualificada, mas com desafios na inserção no mercado de trabalho.
A “doença norueguesa” e seus riscos
A combinação de gastos excessivos, endividamento e estagnação da produtividade levanta preocupações sobre a sustentabilidade do modelo econômico norueguês. O Banco Central tem relutado em aumentar as taxas de juros devido ao alto endividamento das famílias, o que enfraqueceu a coroa norueguesa e afastou investidores estrangeiros.
A “doença norueguesa” descreve o risco de que a riqueza excessiva possa comprometer o futuro econômico do país. Embora a Noruega possa continuar a financiar seus gastos com rendas do fundo soberano, a dependência de retornos de 6% anuais pode se mostrar inatingível. Além disso, uma economia próspera beneficia a sociedade de formas que vão além da subsistência, como a responsabilização política e a satisfação no trabalho, elementos que podem ser prejudicados pela excessiva dependência da riqueza nacional.
Fonte: Estadão