O risco de estanflação, a combinação de alta inflação com baixo ou nulo crescimento econômico, ressurge 50 anos após um de seus episódios mais marcantes. Esse cenário, onde os preços sobem em meio a uma economia estagnada, é incomum em países desenvolvidos e geralmente provocado por choques externos significativos. A debilidade do consumo e do investimento tende a moderar salários e custos, mas fatores exógenos, como uma guerra, podem estagnar a atividade sem aliviar a inflação.
A crise petrolífera dos anos 70 é um exemplo histórico. Recentemente, alertas sobre esse risco aumentaram, especialmente na Europa, com o conflito no Irã completando um mês. O Comissário de Economia da União Europeia, Valdis Dombrovskis, advertiu sobre o risco de uma crise de estanflação. Boris Vujcic, futuro vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), indicou que, embora a estanflação ainda não seja uma realidade, a economia caminha nessa direção, com a magnitude sendo difícil de prever.
O cenário atual é de grande incerteza. Declarações de Donald Trump sobre um possível fim da guerra em breve inicialmente animaram os mercados, mas foram seguidas por discursos que indicavam ações militares mais duras contra o Irã, gerando volatilidade. Nenhuma autoridade europeia deseja subestimar os riscos, após terem subestimado a crise inflacionária de 2021-2022. O BCE projeta uma inflação de 2,6% para a zona do euro este ano, com crescimento do PIB de 1,9%, mas um cenário mais severo pode elevar os preços em mais de 6% em 2027.
O Banco de Espanha também delineou cenários alternativos. Em um cenário pessimista, com a guerra prolongada e preços elevados de petróleo e gás, a inflação poderia atingir 5,9% este ano e 3,2% no próximo, com crescimento do PIB de 1,9% e 1,1% em 2026 e 2027, respectivamente. O cenário base, considerando medidas anticrise, prevê um crescimento de 2,3% para 2026.
A duração do conflito é crucial. Segundo Joaquín Maudos, da Universidade de Valência, um agravamento da guerra antecipa estanflação, com possíveis aumentos de juros e da inadimplência. O euríbor já reflete essa expectativa de reações futuras do BCE. A presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que o banco está pronto para aumentar as taxas de juros em qualquer reunião para conter a inflação.
O economista Manuel Alejandro Hidalgo pondera que um caso de estanflação requer mais do que um choque energético; outras forças precisam intervir para que a espiral de preços ganhe vida própria. Ele compara com os anos 70, onde houve um ciclo inflacionário prévio, diferentemente do choque energético da Ucrânia, que foi agudo, mas passageiro. Para que haja estanflação, o episódio precisa ser prolongado e autossustentável.
O período de estanflação mais notório ocorreu na crise do petróleo de meio século atrás. Entre 1973 e 1975, os Estados Unidos enfrentaram uma contração econômica severa, com o PIB real caindo 7% e a inflação acima de 10%. O embargo de produtores de petróleo quadruplicou os preços do barril. O aumento atual é inferior a 50% desde o início do conflito. O corte no fornecimento russo, após a invasão da Ucrânia, triplicou os preços, mas a economia estava em melhor estado inflacionário.
Um choque petrolífero prolongado pode lastrar o crescimento e levar a economia à estagnação ou recessão. O encarecimento do petróleo e gás natural afeta a economia real, impactando o poder de compra das famílias e a capacidade de investimento das empresas. Produtos e transportes ficam mais caros, o consumo diminui e as empresas podem reduzir a criação de empregos.
Os efeitos já são visíveis. A OCDE estima uma inflação média de 3% para a Espanha este ano, com a taxa em março atingindo 3,3%. A confiança do consumidor na zona do euro caiu em março, assim como as expectativas de emprego, afastando-se da média de 100.
A nova prova de resistência para a economia mundial ocorre após crises recentes e em meio a uma onda de tarifas, que já são inflacionárias. O comércio internacional está alterado, e o conflito atual afeta um ponto nevrálgico, como o estreito de Ormuz, por onde passava uma parte significativa do petróleo e gás liquefeito mundial. O BCE enfrenta o desafio de lidar com essa situação complexa.
Fonte: Elpais