A jornalista e historiadora Anne Applebaum, vencedora do prêmio Pulitzer, afirma que a política externa do governo Trump para influenciar eleições ao redor do mundo é sem precedentes. Segundo ela, o governo americano não apenas apoia abertamente candidatos, mas também utiliza ferramentas diplomáticas e econômicas para moldar resultados eleitorais.



Applebaum destaca que é incomum um presidente americano declarar apoio a candidatos em democracias estrangeiras, diferentemente de governos anteriores que manifestavam apoio a princípios democráticos. Ela cita o resgate financeiro para a Argentina e sanções contra juízes no Brasil como exemplos de intervenção.
A especialista aponta que os candidatos apoiados pelo governo Trump se alinham a uma visão de civilização cristã e ideologia de extrema direita, opondo-se ao que chamam de ideologia de gênero e promovendo partidos antidemocráticos. Essa postura, segundo ela, representa uma visão retrógrada da política e da sociedade.
Influência no ecossistema de informação
Applebaum também aborda o uso do ecossistema de informação para pressionar eleições, mencionando o Twitter (X) como exemplo. Ela afirma que o algoritmo da plataforma foi alterado para favorecer a extrema direita e que a moderação de conteúdo foi reduzida, resultando em um ambiente online mais divisivo e raivoso, o que beneficia partidos extremistas.
Alianças e motivações de Trump
A historiadora identifica três alas influenciando a política externa americana ligadas ao movimento MAGA: autoritários tecnológicos, nacionalistas cristãos e um grupo com viés racista focado em supremacia branca. No entanto, ela ressalta que Trump não pensa ideologicamente ou estrategicamente, mas sim no que o beneficia pessoalmente e em ser visto como dominante.
Como exemplos, cita o apoio de Trump ao prefeito progressista de Nova York, Zohran Mamdani, e ao presidente brasileiro Lula, decisões baseadas em sua intuição e na percepção de vitória, e não em alinhamento ideológico.
Oposição e interferência eleitoral
Applebaum expressa preocupação com a falta de oposição congressual efetiva ao governo Trump, atribuindo a culpa aos republicanos. Ela observa que, apesar disso, os democratas têm vencido eleições em diversos níveis, o que pode ser um sinal de resistência.
A historiadora alerta para a possibilidade de Trump interferir nas eleições, citando o ocorrido em 6 de janeiro de 2021. Ela menciona táticas como dificultar o voto para certos eleitorados e cancelar eleições sob o pretexto de estado de emergência, embora reconheça a complexidade de alterar os 50 sistemas eleitorais distintos dos EUA.
RAIO-X | Anne Applebaum
Anne Applebaum, 61 anos, é jornalista da revista The Atlantic e autora de livros sobre comunismo e autoritarismo. Graduada em História e Literatura por Yale e com mestrado em relações internacionais pela London School of Economics, venceu o prêmio Pulitzer por “Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”.
Fonte: UOL